quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bullying ideológico

Temos a impressão de que o bullying não está presente somente nas escolas infantis ou entre adolescentes. Se percebermos como alguns posicionamentos sociais são tratados, percebemos que pessoas idealistas também são vítimas de uma espécie de bullying.
Já na alegoria da caverna, Platão teria esboçado que aquele que contemplara a luz poderia se tornar vítima de violência quando retornasse à caverna descrevendo a experiência. Sócrates foi hostilizado por amar a verdade. Chegou a se tornar uma caricatura ambulante porque afirmava ouvir o seu “espírito interior”. Sem razão Jesus também foi hostilizado. Sofreu todo tipo de ultraje por anunciar o amor, respeito e tolerância.
Século XXI. Confundimos amadurecimento humano com evolução tecnológica. Com isso nos tornamos arrogantes primatas. Desfilamos com engenhocas que nos permite monitorar nosso patrimônio a quilômetros, enquanto ignoramos a fome que berra ao nosso lado. Evoluímos tecnologicamente na redução das distâncias físicas. Mas retrocedemos na questão humana, criando abismos entre pessoas.
Não só perdemos a capacidade de acreditar em um mundo melhor, mas também cometemos bullying contra aqueles que ainda acreditam. Quando alguém fala que é possível acabar com a pobreza, somos tomados de um conformismo, que chamamos de “senso de realidade” e logo dizemos que não, que não é possível, que é pura fantasia, pura ingenuidade. Com isso, cometemos uma espécie de bullying contra as pessoas que acreditam, e destruímos a oportunidade de uma real evolução humana.
Primeiro fomos convencidos de que a miséria é parte integrante da sociedade. Fizeram-nos acreditar que educação, respeito, amor, ecologia e mundo melhor não passam de ingenuidade própria de contos da carochinha. Aqueles que acreditam nessas coisas são simplesmente ridicularizados, hostilizados, vítimas de uma espécie de “bullying ideológico”. As conseqüências são as mesmas do bullying: desânimo, apatia, isolamento, silêncio.
Depois domesticamos a nossa capacidade de lutar, criminalizamos os movimentos sociais e passamos a tratar os inconformados como terroristas. Promovemos um verdadeiro elogio à covardia, que carinhosamente chamamos de civilização.
Por fim, diante das inegáveis evidências de fracasso, hoje cultuamos os mesmos ídolos que trouxeram destruição. Eles reinventaram o amor e chamam de tolerância. Reinventaram a educação, chamando de escolaridade, reinventaram a ecologia como “sustentabilidade”. Reinventaram o sonho de um mundo melhor e chamaram “crescimento econômico”. Mas os utópicos que falam em educação, ecologia e mundo melhor continuam sendo vítimas de bullying. A razão parece sempre estar com aqueles que tornam as coisas mais complicadas.