quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Violência só gera violência

Se um povo que resolve as coisas na violência não pode ser considerado civilizado, então creio que não somos civilizados, pois a violência faz parte do nosso cotidiano.
Acolhemos em nosso país estudantes que vão às ruas para fazer barulho. Recentemente os jornais exibiam uma filmagem em que uma mulher arrancava à força uma jovem do metrô porque estava sentada em assento preferencial. No entorno de Brasília, trabalhadores bloqueiam ruas, interrompem o trânsito e queimam pneus em protesto contra falta de prestação de serviços públicos. Enfim, parecemos mesmo um bando de selvagens.
Essa violência causa alarde, toma conta dos noticiários e nos envergonha muito. Mas não é dessa violência que estamos falando. Nós nos acomodamos e fomos doutrinados de tal maneira que enxergamos apenas uma face da violência. Achamos uma brutalidade uma mulher forçar uma jovem a se levantar de um assento destinado a idosos, mas não vemos como violência o fato de privar uma idosa de se sentar no assento a que tem direito.
Consideramos uma selvageria ver trabalhadores incendiando ônibus, mas somos tapados para a violência que os barões do transporte praticam contra o trabalhador, apartado do direito de ir e vir porque não tem dinheiro pra comprar carro.
Vemos com profundo pesar monstros bloqueando estradas, ateando fogo em pneus, mas nos parece muito normal ver cidadãos sem transporte, saúde, educação ou saneamento básico. Criminalizamos nossos movimentos sociais porque lutam por terra, mas saudamos com louvor os latifundiários do agronegócio, que escravizam pessoas famintas para mandar o melhor de nossa terra para alimentar gado europeu. Da próxima vez que nos disserem “violência só gera violência”, lembremos que a violência social começa com a violação dos direitos fundamentais.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Uma curiosidade sobre a lógica neoliberal

Diz a regra neoliberal que as coisas não funcionam nas mãos do Estado. Bom negócio mesmo é aquele administrado pela iniciativa privada. Quem duvida é convocado a constatar a diferença entre as escolas, estradas e hospitais públicos e privados. Além disso, dizem que a privatização salvou a telecomunicação e a mineração no país. Enfim, há um consenso de que o Estado não tem competência para gerir nada.
Mas toda regra possui uma exceção. O hemocentro de Brasília, por exemplo, desmascara esse mito e mostra que repartições públicas podem ser eficientes, sim. A unidade proporciona excelência no atendimento, dispõe de sistema informatizado, oferece ótimas instalações, e os funcionários esbanjam competência, agilidade e cortesia. O que determina o sucesso ou fracasso de uma gestão não é se ela é pública ou privada, mas uma lógica curiosa:
A nossa alta sociedade, isto é, nossos nobres deputados, juízes e empresários não admitem que seus filhos dividam uma sala de aula com o filho do pedreiro, da empregada doméstica ou do gari. Na lógica liberal, recurso público destinado ao pobre é puro desperdício. Por outro lado, quando se vêem diante da necessidade de uma transfusão de sangue, ninguém pergunta se o doador é pobre, negro, nordestino ou analfabeto. Nessa hora, um espírito "mais-que-natalino" esconde embaixo do tapete todas as diferenças genéticas, sociais e culturais. De repente todos nos tornamos uma única família. Se o pobre é bem tratado no hemocentro e morre na fila do hospital público, só podemos concluir de que esse sangue vai correr em veias nobres. Para essa gente, dinheiro público só é bem aplicado quando é para sangrar ainda mais o pobre. E no caso do hemocentro, literalmente. No Brasil é assim: quando se fala em transferência de sangue, somos todos irmãos, mas quando se fala em transferência de renda, uns são humanos, outros são macacos.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Ex-presidente *

Sempre reparei muito as nomenclaturas e terminologias utilizadas nos mais variados textos e entrevistas.
E, como de costume, também notei que a Imprensa, de um modo em geral (ou se preferirem... as "poderosas" - quase todas, diga-se de passagem), sempre se dirigia às ex-autoridades máximas de nosso país sem a nomenclatura "ex" - principalmente em entrevistas (televisivas ou não - embora a ausência da partícula predominasse nas de primeiro tipo). Chamavam o Fernando Henrique Cardoso de Presidente - mesmo após alguns anos de sua saída; idem para Sarney, Itamar.
Para não ficar só na Presidência, basta olhar alguns casos de Governadores, Senadores e Deputados que saíram dos cargos (seja para disputar novos, seja pela derrota em eleições). Não vou ficar citando muito nomes. Diversas entrevistas no YouTube estão disponíveis para quem se interessar.
O fato é que "nunca antes na história desse país" um ex-presidente foi assim chamado: "EX-Presidente".
Mas com Lula, parece que querem fazer de tudo para apagarem sua estrela (ou a do Partido dos Trabalhadores  - PT, nunca se sabe).
A realidade é que fazem de tudo para enfatizar a partícula "ex".
Não sei se é a falta de costume de verem tratar um ex-presidente assim ou se é porque a partícula vem carregada com um viés negativo de tentar, efetivamente, afastá-lo - ou ambos.
Mas a realidade é que Lula, até nisso, foi superior.
Não roubou a cena na posse de Dilma. Nem ficou ou está dando pitacos no novo governo. Enfim. Apenas se resignou - ação que alguns EX-Presidentes, EX-Senadores, EX-Prefeitos, EX-Governadores, EX-Deputados, EX-Vereadores deveriam fazer, não é mesmo?! De qualquer jeito, fica a dica...

* Colaboração de Rafael Alves

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Bom senso*

Como mero colaborador, permito-me estender um “pouco” mais em meu(s) texto(s) do que o anfitrião do sítio.
A meu ver, e tentando casar um pouco as informações já postadas por aqui, a sociedade brasileira passa por um momento de grande falta de bom senso, e, em minha visão, explica algumas (não todas) das considerações já tecidas pelo proprietário deste diretório.
Vemos a falta de bom senso quando há discriminação, em pleno século XXI, a pessoas – seja por classe econômica, cor de pele, opção sexual, opção religiosa, etc.; quando parlamentares aumentam o próprio salário deixando a míngua prioridades nacionais; quando o país se preocupa mais em promover eventos como Olimpíadas e Copa do Mundo de Futebol do que investir em educação ou saúde. Enfim...
Um exemplo recente da existência de atitudes infames como essas foi a postagem, na rede mundial de computadores (através da rede social Twitter), de autoria da estudante de Direito Mayara Petruso, do seguinte comentário: “Nordestisto não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado!” (sic).
Que ela possua essa opinião, em minha visão, não é problema. O problema foi a forma de externá-la.
Acredito na liberdade lato sensu. Entretanto, por mais que a liberdade de expressão exista, ela não está por aí, rodando, a bel prazer de quem ousa usá-la. Há um custo ao usá-la. E esse custo é o respeito.
Em minha mente posso cometer os crimes mais sinistros, mais atrozes e inimagináveis de tão perplexos e torturantes. Contudo, não posso pô-los em prática. Talvez externá-los de determinado modo dê bons livros de terror, mas, ao dizer que gostaria de cometer qualquer desses crimes a determinada pessoa não estou mais exercendo liberdade de expressão. Exerço ameaça. Cometo desrespeito.
Da mesma forma assim acontece com determinadas opiniões, que, ao ultrapassar as cordas vocais e atingir o lado externo da boca ganham outra significação. Tal qual o caso do tweet da estudante acima citada.

Ao descrever tal comentário ela não apenas emitiu sua opinião. Ela desrespeitou um determinado grupo de cidadãos, que, assim como ela, são feitos de células, tecidos, conjuntos, órgãos; se alimentam; vivem; pagam impostos; votam, etc. Coisas que ela (e milhares de outras pessoas) também fazem.
Em suma: ultrapassou os limites da liberdade, desrespeitando o próximo.
E aí entra o bom senso (a falta dele, melhor dizendo). Não gostar de alguém (específico ou não) é normal. Todos temos gostos e opinões e a realidade é que não se consegue agradar a todos.
Externá-las numa rede mundial, em que a informação é disseminada a velocidades surpreendentes, demonstra uma falta de senso sem tamanho e, infelizmente, rotineira na sociedade brasileira. Nesse caso, em específico, a ausência de bom senso foi tamanha que houve comentários em noticiários estrangeiros...
Mas a falta de bom senso não fica adstrita a apenas esse tipo de ação ou pessoa.
É possível perceber a ausência de bom senso quando os dirigentes do país se preocupam mais em aprovar os próprios salários a fazer reformas que sejam benéficas a sua população (população que, direta ou indiretamente, os designou como representantes).
É maior ainda a ausência de senso dos administradores do país quando fizeram de tudo para trazer os dois maiores eventos esportivos do mundo para serem sediados no país enquanto os hospitais sofrem com a também ausência de leitos, remédios, médicos capacitados; enquanto o país ocupa uma das piores colocações em índices de leitura; enquanto a maioria dos municípios é deficitário em saneamento básico...
Não que esses eventos não tragam benefícios aos países que o sediam. Longe disso. Ou ao menos é o que se espera. Haverão melhorias na infraestrutura de transportes (rodoviário, aeroviário, ferroviário, aquaviário), melhoria na saúde e outras áreas – tudo exigência das agências esportivas para que seja possível a realização dos eventos.
Entretanto pairam duas dúvidas muito pontuais: 1ª Era mesmo necessário termos sido escolhidos sede desses eventos para, enfim, “colocarmos ordem na casa” e realizar as ações que, seja por lei, seja por obrigação moral ou social, estamos obrigados a cumprir?; 2ª Por que tanto dispêndio de esforços para a realização desses eventos (ou a celeridade na aprovação dos próprios proventos) se nas ações ordinárias, costumeiras e necessárias, não é o que se constata?
Mais uma vez a falta de bom senso (e começo a acreditar que seja falta de senso mesmo) se mostra bem clara…
Findarei por aqui para não me alongar demais e a fim de evitar a fadiga do leitor.
Que 2011 nos traga fartura de bom senso (Ou apenas senso já nos bastaria? Ou talvez esse escritor tenha usado erroneamente a expressão “bom senso” quando queria dizer “educação”?! A dúvida pode permanecer… mas a realidade é que se a nossa população for beneficiada por qualquer uma dessas dádivas humanas, nosso país só tem a ganhar!)

*Rafael Alves