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domingo, 1 de janeiro de 2012

Tudo o que o homem semear...

Tudo o que o homem semear, isso também ceifará. O texto é de Gálatas, e possui outras variações, mas a mensagem é a mesma: colhemos aquilo que plantamos. Geralmente fazemos uma interpretação individual desse texto e, convenientemente, aplicamos aos outros.
É possível que muitos problemas sociais pudessem ser resolvidos se tivéssemos a honestidade de admitir que os provocamos.
Vivemos trancafiados pelo medo da violência, mas esquecemos que ela ocorre por causa da miséria, da falta de educação e de oportunidades.
Nossas crianças estudam meio período, e passam boa parte do dia sem nenhuma opção criativa. Elas não têm oportunidades de cultura ou lazer, e são educadas por uma mídia que está o tempo inteiro chamando de caretice os valores que nos restam. "Acaso poderá uma árvore má dar bons frutos?", perguntou Cristo.
Esse foi o caminho que escolhemos. Chamamos de "exclusivo" o que há de melhor, sem nos darmos conta de que com isso promovemos um culto à exclusão. Cultuamos também a imagem descontraída e inofensiva da "loira gelada" e do cigarro, para depois nos assustamos com a notícia de que adolescentes experimentam essas drogas cada vez mais cedo. Acaso foram essas crianças abduzidas e viciadas por extraterrestres ou são apenas fruto da nossa cultura esquizofrênica? Assim, podemos finalizar com uma frase bem interessante, cujo autor desconheço: Todo mundo pensa em deixar um planeta melhor para nossos filhos… Quando é que pensarão em deixar filhos melhores para o nosso planeta?

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Brasília e seu governador "ad hoc"

Causa náusea transitar por Brasília. Os longos engarrafamentos proporcionam aos motoristas e passageiros de ônibus superlotados tempo mais do que suficiente para examinar cada detalhe dos outdoors que o governo andou espalhando pela cidade. Mesmo os que não dão atenção aos outdoors não escapam da publicidade do GDF. A programação matinal do rádio também está infestada da publicidade governamental.
Acumulando as condições de ex-ministro dos esportes, lamentavelmente, de ex-comunista e, esperamos que futuramente ex-governador, o atual governo do DF transformou o palácio do Buriti em um gabinete de assuntos para a Copa do Mundo. A publicidade institucional estampada em outdoors ou na tevê e no rádio leva à impressão de que a máquina administrativa está voltada para os jogos de 2014.
A situação piora quando lemos as notícias mostram as viagens oficiais e os discursos do governador. Das viagens, podemos citar duas: uma visita à Alemanha, para se inspirar “in loco” em um estádio de futebol de primeiro mundo. Outra, à China, uma espécie de lobby internacional para trazer a abertura do mundial e os jogos de 2016 para Brasília.
Quanto aos discursos, a náusea é ainda mais intensa: Os cursos de capacitação oferecidos à população não são para educar, gerar emprego, melhorar a saúde, transporte, qualificar ou fomentar o comércio, e sim para adestrar as pessoas na arte de adular turistas. Com relação as obras, funciona assim: Se uma calçada vai ser construída, é importante destacar que ficará pronta antes da Copa. Se uma via ganhará iluminação, fiquem todos sabendo que ficará pronta antes da Copa. Não importa se um posto de saúde ficará pronto a tempo de acolher uma futura mãe para que tenha o filho com dignidade. O recado é claro: que se lixe a população que trabalha e que sustenta a cidade, o importante é saber se ficará pronto antes dos jogos.
Os outdoors servem também para que as passageiras de ônibus tenham uma prévia do nosso novo estádio de futebol e talvez esqueçam que estão sendo “encoxadas” (molestadas) pela lotação a que são submetidas, ou então para que todos se distraiam quando forem obrigados a descer do ônibus que despencou durante a viagem.
Enfim, os esforços atuais do governo se destinam a introjetar esse estúpido orgulho de uma capital pronta para a Copa, na tentativa de maquiar a vergonha de um sistema de transporte caótico, saúde deficiente e educação falida.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bullying ideológico

Temos a impressão de que o bullying não está presente somente nas escolas infantis ou entre adolescentes. Se percebermos como alguns posicionamentos sociais são tratados, percebemos que pessoas idealistas também são vítimas de uma espécie de bullying.
Já na alegoria da caverna, Platão teria esboçado que aquele que contemplara a luz poderia se tornar vítima de violência quando retornasse à caverna descrevendo a experiência. Sócrates foi hostilizado por amar a verdade. Chegou a se tornar uma caricatura ambulante porque afirmava ouvir o seu “espírito interior”. Sem razão Jesus também foi hostilizado. Sofreu todo tipo de ultraje por anunciar o amor, respeito e tolerância.
Século XXI. Confundimos amadurecimento humano com evolução tecnológica. Com isso nos tornamos arrogantes primatas. Desfilamos com engenhocas que nos permite monitorar nosso patrimônio a quilômetros, enquanto ignoramos a fome que berra ao nosso lado. Evoluímos tecnologicamente na redução das distâncias físicas. Mas retrocedemos na questão humana, criando abismos entre pessoas.
Não só perdemos a capacidade de acreditar em um mundo melhor, mas também cometemos bullying contra aqueles que ainda acreditam. Quando alguém fala que é possível acabar com a pobreza, somos tomados de um conformismo, que chamamos de “senso de realidade” e logo dizemos que não, que não é possível, que é pura fantasia, pura ingenuidade. Com isso, cometemos uma espécie de bullying contra as pessoas que acreditam, e destruímos a oportunidade de uma real evolução humana.
Primeiro fomos convencidos de que a miséria é parte integrante da sociedade. Fizeram-nos acreditar que educação, respeito, amor, ecologia e mundo melhor não passam de ingenuidade própria de contos da carochinha. Aqueles que acreditam nessas coisas são simplesmente ridicularizados, hostilizados, vítimas de uma espécie de “bullying ideológico”. As conseqüências são as mesmas do bullying: desânimo, apatia, isolamento, silêncio.
Depois domesticamos a nossa capacidade de lutar, criminalizamos os movimentos sociais e passamos a tratar os inconformados como terroristas. Promovemos um verdadeiro elogio à covardia, que carinhosamente chamamos de civilização.
Por fim, diante das inegáveis evidências de fracasso, hoje cultuamos os mesmos ídolos que trouxeram destruição. Eles reinventaram o amor e chamam de tolerância. Reinventaram a educação, chamando de escolaridade, reinventaram a ecologia como “sustentabilidade”. Reinventaram o sonho de um mundo melhor e chamaram “crescimento econômico”. Mas os utópicos que falam em educação, ecologia e mundo melhor continuam sendo vítimas de bullying. A razão parece sempre estar com aqueles que tornam as coisas mais complicadas.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ainda sobre qualificação...

De vez em quando, alguma revista ou reportagem de TV mostra algum brasileiro bem sucedido no exterior. A notícia quase sempre é feita em tom patriótico, como se fosse um orgulho nacional ver uma estrela brasileira brilhando em céu estrangeiro.
Com vaidade descobrimos que um coritibano está por trás do projeto “Natal”, que se transformou no Kinect, um novo paradigma em Games criado pela poderosa Microsoft. Por esse mesmo sentimento, sentimo-nos co-produtores de "Rio", a animação de sucesso dirigida por um carioca em estúdios americanos. Quase sempre a reação é de orgulho. Não dizemos que é sempre porque quando o craque do nosso time vai jogar na Europa a nossa sensação é de pesar.
Esses e tantos outros exemplos mostram que, no Brasil, quando algum profissional atinge alta qualificação, ao invés de exportarmos o resultado do seu trabalho, exportamos o próprio profissional, para depois importarmos o resultado de seu trabalho.
Notícias como essas, ao invés de orgulho, deveriam gerar em nós constrangimento. Primeiro, porque o sonho de se tornar médico, engenheiro, astronauta ou inventor quase sempre esbarra na exclusão, no abandono escolar, no trabalho infantil ou na prostituição.
Deixando para trás uma multidão de excluídos, os poucos que conseguem alta qualificação não conseguem atuar em suas áreas. O número de profissionais altamente qualificados é tão pouco que é mais fácil encontrar uma boa oportunidade no mercado externo do que encontrar aqui as condições necessárias para produzir. Por falta de condições, se dois engenheiros elétricos se formam na mesma turma, possivelmente um fará carreira em uma multinacional enquanto seu colega de turma se dedicará a trocar capacitores em radinhos. Isso porque não existem, no Brasil, as condições para que esses dois se unam para criar, inovar, produzir e exportar.
Infelizmente, no Brasil, a formação acadêmica é sempre vista como um passaporte e nunca como um direito fundamental, tão necessário quanto saneamento básico. No imaginário popular, a formação acadêmica está mais associada ao mérito de um esforço colossal do que ao exercício de cidadania. Infelizmente, até alguns daqueles que se educaram alimentam um estranho sentimento de que educação deve continuar sendo um caminho árduo. Afinal, se foi difícil pra mim, porque teria de ser fácil para os outros?

domingo, 22 de maio de 2011

Infiltração social

Graças aos programas de erradicação da miséria, crescimento econômico do país, geração de empregos e expansão do crédito, pessoas que antes eram totalmente excluídas da economia atualmente têm acesso ao consumo. Entretanto, os pobres ainda não foram realmente absorvidos pela sociedade. O que tem ocorrido está mais para uma "infiltração social" do que uma inclusão propriamente dita.
Não houve inclusão social verdadeira porque democracia não se resume a consumo. Como já dissemos em outra oportunidade, o trabalhador tem acesso aos produtos, mas está distante dos meios de produção. Pode comprar um televisor de LED, mas não tem acesso à informação. Tem acesso ao alimento, mas não tem acesso à terra. Existe uma mera relação de consumo, e não de participação efetiva. Seus direitos sociais foram trocados por mercadorias. 
Não houve inclusão social também porque a classe média ainda não acolheu esse novo consumidor. Ao que parece, algumas pessoas se sentem ameaçadas pela distribuição de renda. Temos visto notícias de preconceito porque parte da classe média não aceita dividir a sala de aula com alguém da periferia. Os pobres ainda causam estranheza nos mercados, quando circulam pelos corredores de biscoito e iogurte. São objeto de hostilidade porque têm conta bancária, porque consomem, porque compram carro e porque vão passear. 
Resultado disso é que são covardemente culpados pelas longas filas nos caixas do mercado, pelas filas nos bancos, pela inflação, pelos acidentes, pelos congestionamentos, pela falta de estacionamento e pelo caos nos aeroportos. 
A inclusão social deve ser vista, sobretudo, como reconhecimento da dignidade que há no outro, condição necessária para que os pobres não sejam vistos como alienígenas, e sim como seres humanos.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A loucura dos sábios e a sabedoria dos ignorantes

Muitas pessoas não se interessam por política porque pensam se tratar de algo complicado, e por isso acabam deixando o futuro dos filhos nas mãos de cientistas e economistas, o que é um erro grosseiro.
Repare à sua volta que os pais que tiveram menos instrução são os mais dispostos a fazer qualquer sacrifício pela boa educação dos filhos. Um pai analfabeto jamais deixaria de comprar material escolar para o filho para lhe comprar brinquedo. Por mais que consideremos essas pessoas simples, elas sabem reconhecer aquilo que é importante.
Infelizmente a gestão pública não é norteada por esse mesmo sentimento. Poucos políticos têm esse compromisso com as pessoas. Administradores se esquecem do que é simples e muitas vezes gerenciam os recursos públicos como se vivessem em outra dimensão. Com o único propósito de impressionar turistas com conforto e velocidade, planejam trem-bala com dinheiro do contribuinte que perde 4 horas diárias espremido em engarrafamento no percurso para o trabalho. Abandonam as escolas porque estão ocupados, competindo para ver quem constrói o estádio mais moderno para a Copa. Falam em inclusão digital, como se o Brasil tivesse superado a inclusão social, como se não existisse mais ninguém em total indigência.
Salvam bancos e multinacionais de crises que eles mesmos causaram com especulação, com o dinheiro arrecadado dos trabalhadores e micro-empresários, que sobrevivem como podem aos juros e às instabilidades do mercado. Enfim, a deturpação das prioridades levou nossa auto-estima à falência. Precisamos resgatar nossa capacidade de acreditar no futuro. A questão não é a reforma política, e sim uma reforma nas prioridades políticas. Não é questão de eleger colecionadores de diplomas, e sim de ter a humildade de reaprender com os mais simples como realizar aquilo que é mais importante.

domingo, 15 de maio de 2011

Higienópolis: retrato de uma elite deseducada

Engana-se quem pensa que no Brasil educação é coisa de gente rica. Os ricos do Brasil não são educados. Eles cursam universidade, tornam-se escritores, empresário, intelectuais, poliglotas, políticos, economistas, juristas e doutores, mas boa parte nunca chega a ter educação de verdade. A educação tem por finalidade humanizar as pessoas. Torná-las civilizadas.
No Brasil não existe educação nem para os pobres nem para os ricos. Não existe para os pobres porque não existe escolas suficientes, nem vagas, nem infraestrutura, e nem professores, nem recursos. Às vezes existe a escola, mas não existe política para manter as crianças, que são obrigadas a abandonar a escola para ajudar em casa, seja trabalhando, pedindo ou se prostituindo.
Para os ricos a coisa é diferente. Existe escola, recurso, infraestrutura, professor, data-show, laboratórios, feira de ciência, livro didático, merenda e reforço escolar, mas não existe educação.
Não existe educação porque as pessoas não saem das universidades civilizadas. Saem com diploma, com carreira e futuro promissor, apenas. Graduam-se cheias de preconceitos. Vivem reclusas em condomínios de luxo, carros blindados, cercas elétricas. Reproduzem preconceitos contra nordestinos, contra pobres, contra homoafetivos, contra negros.
É só observar os noticiários. Tem estudante de direito que acha que paulista tem sangue melhor que nordestino, como virou notícia. Deveria estar cursando novamente o ensino fundamental. Tenho minhas dúvidas também quanto ao nível educacional de moradores de bairro nobre, que acham que a construção de uma linha do metrô desvalorizará o mercado imobiliário porque vai atrair "gente diferenciada". Tem jornalista nervoso porque agora "qualquer miserável tem carro". Tem empresário bem sucedido no agronegócio comemorando exportação de soja, enquanto milhões de brasileiros estão desnutridos.
A instrução da nossa elite ensina a se tornar rico. Falta mesmo é educação, aquela que ensina a se tornar humano.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Misturando um pouco de política com religião

Um dos maiores prejuízos para a nossa sociedade, sem dúvida alguma, é a idéia de que precisa ser intelectual para falar sobre algum assunto. Temos aquela ingênua noção de que a verdade está nas mãos dos catedráticos, e por causa desse preconceito  pagamos um preço muito alto.
Contando com a compreensão do leitor que não é cristão, faremos uma pequena comparação entre a Igreja e a Política.
Jesus Cristo foi um homem simples. Exceto um ligeiro comentário sobre sua infância "no meio dos doutores", Cristo se cercava das pessoas simples. Ele não se levantava na multidão para falar de exegese, escatologia, homilética, soteriologia, pneumatologia ou hermenêutica. Na verdade ele nem fazia questão de conversar com os fariseus, que eram os donos da verdade da época. Ele estava onde as pessoas precisavam dele. Ele deixava os intelectuais para falar com a estrangeira, com a prostituta ou com o cego impertinente. Esse é o Jesus bíblico. Mas, santo Deus, o que foi que fizemos com ele? como fomos capazaes de sepultá-lo novamente? Hoje, ao invés de ensinar a prática do amor, as pregações cristãs se tornaram uma verborragia puramente intelectualóide.
O mesmo ocorreu com a política. A política nasce com o sentimento de coletividade, de cidadania. Fazer política é cuidar das pessoas, educar as crianças, pensar no futuro com otimismo. Entretanto, os cansados trabalhadores se tornaram rebanho nas mãos de economistas. Nosso catecismo diário se tornou ver no Jornal Nacional como fechou a bolsa de Tóquio, as decisões do COPOM ou o índice de Dow Jones.  Afinal, por que não divulgam diariamente os índices atuais de crianças famintas ou de analfabetos? Ensinaram que temos que nos calar porque não entendemos o que é superávit primário, PIB, Selic, Ibovespa, etc. E dissemos amém para tudo isso.
Mas assim como Jesus disse que da boca dos pequeninos é que sai o perfeito louvor, arriscaria dizer que ninguém mais do que o trabalhador sabe o que é melhor para seu filho. Nossos intelectuais nos convenceram de que construir estádios trará desenvolvimento e dinamismo para o Brasil. O mais modesto homem do campo dirá que é uma escola. Quem está com a razão?

domingo, 24 de abril de 2011

Movidos a gasolina

Com o preço da gasolina rompendo a barreira dos R$ 3, observamos que a população começa a se interessar por algumas questões de interesse nacional. Afinal de contas, é um absurdo pagarmos um preço tão alto pela gasolina!
Como que em passe de mágica, estamos todos informados sobre prospecção, auto-suficiência, extração, refinamento, distribuição, tributação, "cartelização" e consumo do petróleo. É muito positiva essa reação. Agora qualquer cidadão está apto a discursar com propriedade sobre o preço da gasolina. É um bom começo. Afinal, se somos auto-suficientes em petróleo, por que pagamos tão caro? Porque a gasolina é mais cara do que nos nossos vizinhos?
É lamentável que isso tenha ocorrido tão tarde e com um produto destinado a quem tem uma renda suficiente para comprar um carro. Mas, talvez, movidos a gasolina, procuremos outras explicações.
Ora, se é um absurdo pagar por R$ 3 na gasolina porque somos auto-suficientes, o que dizer da soja? exportamos para o mundo inteiro, e o preço do litro de leite de soja há muito tempo ultrapassa os R$ 4 e até agora não se viu nenhuma manifestação! Por que só o preço da gasolina incomoda?
Achamos um absurdo deixar de usar o carro, apenas porque somos auto-suficientes em petróleo. Entretanto, não nos incomoda que milhares de pessoas deixem de usar o estômago em uma nação exportadora de alimentos. A mesma noção de auto-suficiência não admite que um carro fique sem gasolina, mas permite que famílias inteiras passem fome.
Essa indignação reflete novamente a idéia de que não existe um sentimento de nação e de solidariedade entre o nosso povo. Só podemos nos considerar solidários quando tivemos a capacidade de lutar para que todos se alimentem com o mesmo esforço que empregamos para que nossos carros estejam abastecidos.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A República das Bananas

Não conheço brasileiro que não se ofenda com a nossa imagem primitiva no exterior. Nos filmes de Hollywood somos os jardineiros, imigrantes ilegais, narcotraficantes. Nos noticiários internacionais somos o país da violência, da corrupção, que não sabe receber turista. Nossos símbolos são futebol, carnaval e prostituição.
Realmente, tal redução ofende a nossa riqueza cultural. Ainda assim, convidamos a colocar de lado a nossa indignação e a fazer uma reflexão.
Enquanto nos esforçamos para manter tudo o que é supérfluo em padrões europeus, permitimos que escolas, transportes, hospitais e saneamento básico continuem em padrões pré-históricos.
Optamos por um conceito excêntrico de modernidade. Gastamos com modernas urnas eletrôncias, mas permitimos que o eleitor vá votar com fome e desinformado. Gastamos com transmissores digitais, mas permitimos que a comunicação seja uníssona e unilateral, concentrada nas mãos de conglomerados enquanto as comunidades e movimentos sociais são silenciados. Gastamos em laptops para promover inclusão digital e permitimos que crianças continuem nos semáforos no horário escolar, por falta de vaga ou de merenda. Brasília se endividará fazendo um trem para impressionar estrangeiros durante a copa do mundo, enquanto o transporte de massas continuará ineficiente para seu próprio povo. Permitimos que nossas universidades financiem a formação de cirurgiões estéticos, que ficarão ricos enquanto o povo continuará aguardando anos por tratamentos tão simples que Hipócrates já realizava na Grécia, há 500 anos antes de Cristo. Enfim, quando se leva em conta as nossas prioridades e os nossos projetos, chegamos à triste conclusão de que realmente somos mais bem descritos como uma república de bananas do que uma nação séria e comprometida com seu povo.
Hoje, com a atuação dos órgãos de controle e instrumentos de transparência, já não permitimos que o nosso dinheiro seja roubado, agora precisamos estabelecer mecanismos para que ele não seja mal gasto.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Qual é a reforma mais urgente?

Se dermos um pouco de crédito aos noticiários e à classe política, tudo indica que o Brasil deverá passar por grandes reformas nos próximos anos. Fala-se muito, ultimamente, em reforma política e reforma tributária, mas existem também temas que não estão na moda, mas nem por isso deixam de ser populares, como reforma agrária e dos meios de comunicação. De todas as reformas que arrisquei enumerar, alguns motivos que me levam a crer que a mais urgente é a reforma dos meios de comunicação.
O motivo é simples: essas reformas promoverão transformações estruturais no país. Não estamos falando de reparo em um museu ou da construção de uma ponte. Estamos falando de transformações que afetarão toda a população, inclusive as próximas gerações.
Durante o período militar, por decisões extremamente concentradas o país assumiu dívidas históricas, na maioria das vezes contraídas para financiar projetos totalmente desalinhados com as prioridades da época e o interesse nacional. Pela arbitrariedade de um governo, ainda hoje uma nação inteira trabalha para arcar com essa dívida. Isso não é justo.
Não podemos repetir esse erro histórico. Temos uma grande responsabilidade com o futuro do país. Por isso, entendo que o pré-requisito para todas as reformas é o esclarecimento e o envolvimento da população. Enquanto a opinião pública continuar sendo controlada pelos mesmos feudos midiáticos que apoiaram a ditadura, a população será vítima de um golpe após o outro. Só haverá debate de verdade e participação das massas com a democratização dos meios de comunicação. Portanto, comecemos o debate com a Reforma das Comunicações.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Capitalismo e Socialismo na Teoria e na Prática

É incômodo perceber como nosso modelo educacional nos doutrinou a enxergar a economia. Sempre vemos socialismo por um dos seguintes modos: ou mencionamos como uma bárbara e fracassada ditadura marcada por atrasos e violação a direitos humanos, coerção à liberdade e à religião, ou então como um absurdo ilógico e impraticável conto de fadas. Para nos livrar desse horror, até rebatizaram a palavra utopia, ampliando o significado de algo que não existe para significar algo que jamais poderá existir, tal qual um conto infantil, coisa de juventude “revoltadinha” ou então, no máximo, como ingenuidade intelectual.
Da mesma forma, fomos doutrinados a enxergar apenas dois modelos de capitalismo: ou o capitalismo dos livros, belíssima teoria onde se exalta a liberdade individual e a livre iniciativa, ou então o modelo norte-americano, apresentado como a terra das oportunidades, da abundância (leia-se desperdício), onde para ser próspero é só uma questão de vontade.
No socialismo, violência, despotismo e ausência de liberdade são partes integrantes, atributos inerentes, intrínsecos, imanentes ao próprio sistema. Ninguém se habilita a explicar como um país pobre como Cuba sobrevive com índice de desenvolvimento humano elevado, tendo um povo instruído e baixa mortalidade infantil. Mas quando se fala em capitalismo, a pujança econômica se deve unicamente à formidável coerência interna do sistema, enquanto que temas como fome, corrupção, desnutrição, mortalidade infantil e favela são meros acidentes, causados pela indolência do próprio povo.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Violência só gera violência

Se um povo que resolve as coisas na violência não pode ser considerado civilizado, então creio que não somos civilizados, pois a violência faz parte do nosso cotidiano.
Acolhemos em nosso país estudantes que vão às ruas para fazer barulho. Recentemente os jornais exibiam uma filmagem em que uma mulher arrancava à força uma jovem do metrô porque estava sentada em assento preferencial. No entorno de Brasília, trabalhadores bloqueiam ruas, interrompem o trânsito e queimam pneus em protesto contra falta de prestação de serviços públicos. Enfim, parecemos mesmo um bando de selvagens.
Essa violência causa alarde, toma conta dos noticiários e nos envergonha muito. Mas não é dessa violência que estamos falando. Nós nos acomodamos e fomos doutrinados de tal maneira que enxergamos apenas uma face da violência. Achamos uma brutalidade uma mulher forçar uma jovem a se levantar de um assento destinado a idosos, mas não vemos como violência o fato de privar uma idosa de se sentar no assento a que tem direito.
Consideramos uma selvageria ver trabalhadores incendiando ônibus, mas somos tapados para a violência que os barões do transporte praticam contra o trabalhador, apartado do direito de ir e vir porque não tem dinheiro pra comprar carro.
Vemos com profundo pesar monstros bloqueando estradas, ateando fogo em pneus, mas nos parece muito normal ver cidadãos sem transporte, saúde, educação ou saneamento básico. Criminalizamos nossos movimentos sociais porque lutam por terra, mas saudamos com louvor os latifundiários do agronegócio, que escravizam pessoas famintas para mandar o melhor de nossa terra para alimentar gado europeu. Da próxima vez que nos disserem “violência só gera violência”, lembremos que a violência social começa com a violação dos direitos fundamentais.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sobre as nossas prioridades

Não existe, talvez, idéia mais perniciosa do que o discurso de que o pobre é "puxado" pelo progresso do rico. Esse é o discurso responsável pela corrupção das nossas prioridades.
Poderíamos, por exemplo, imaginar que o dinheiro que será despejado nos modernos estádios para sediar a copa do mundo poderia ser empregado na saúde, educação ou mesmo nos esportes. Mas isso não é importante. É discurso de ignorante, que não entende nada de economia. Construir escolas, hospitais e creches não gera emprego e seus benefícios não são permanentes.
Prioridade mesmo é construir estádios e modernizar os já existentes: isso sim atrai turistas, dinamiza a economia, gera empregos para os pobres e deixam uma infraestrutura para toda a posteridade. Isso sim é projeto de futuro. Para nós pode parecer um absurdo porque nos falta visão.
Nossas prioridades nos indicam que ter modernos estádios é mais relevante para nossa "imagem no exterior" do que oferecer creche, vacina, merenda e escola às nossas crianças.
Ao final de 2014, teremos estádios de futebol trazidos do futuro e continuaremos com saneamento básico pré-colonial. No fundo, estamos mais preocupados em nos misturarmos entre os países que consideramos desenvolvidos do que desenvolver, de fato, uma inclusão social interna.
Seguindo essa linha de raciocínio, poderíamos então dizer que melhorando a alimentação dos ricos, esses produzirão, com seus excrementos, estercos de alta qualidade para os lavradores pobres. Celebremos nossas prioridades.

domingo, 14 de novembro de 2010

Mídia, Opinião Pública e Golpe

De um modo geral, as pessoas concordam que os programas de TV causam influências na moda, nos costumes, estética ou na linguagem, em maior ou menor proporção.
Normalmente esse fenômeno é identificado entre os jovens, que são mais suscetíveis às chamadas "febres". Quando um personagem é popular na TV, rapidamente vemos suas roupas, calçados e até sua linguagem ser exaustivamente reproduzida no dia a dia.
Mas o grande negócio da mídia nunca foi vender produtos, e sim vender idéias. A moda passa ligeiramente, mas as idéias se enraízam. O problema não é quando a moda torna uma juventude refém, e sim quando as idéias fixam na experiência dos cabelos grisalhos. Aqui está o verdadeiro perigo.
A mídia sempre esteve com um pé à frente dos golpes. A nossa imprensa preparou a opinião pública para o Golpe de 1964, prestando culto à ordem e associando qualquer mobilização à violência e à desordem. Pouco antes, as multinacionais gastavam milhões financiando propagandas que mostravam a necessidade para conter o avanço do comunismo como questão de segurança nacional. A nossa ditadura passou a ser vista como uma necessidade. No ano de 1982, a mídia preparava o Rio de Janeiro para aceitar uma derrota de Leonel Brizola nas urnas, mas a fraude foi descoberta e a vontade do povo prevaleceu.
Ainda hoje reproduzimos as mesmas idéias que nos foram vendidas. Vimos ressurgir com força nas últimas campanhas eleitorais, quando o tripé "Tradição, Família e Propriedade" foi novamente usado para evitar que uma guerrilheira fosse eleita pela vontade do povo.
Para a nossa imprensa, a ordem estabelecida leva as coisas à mais perfeita harmonia. E pelo visto, os nossos ídolos ainda são os mesmos...