Editorial

O propósito do diretório social é proporcionar ao leitor textos curtos e reflexivos, que sugiram uma visão alternativa sobre as idéias que permeiam os acontecimentos políticos e econômicos.
Vale ressaltar que o foco são as idéias e não os acontecimentos em si.
Um exemplo claro foi a decisão do parlamento francês de expulsar os ciganos. Esse foi um fato lastimável. Entretanto, a mídia noticiou o acontecimento de forma pacífica. Se o mesmo tivesse ocorrido na Venezuela, os grandes jornais estampariam na primeira página por semanas que era um gesto tipicamente autoritário de xenofobia, uma violência aos direitos humanos. Entretanto, como ocorreu em um país europeu, a notícia foi dada com uma roupagem civilizada e democrática.
Segregar um povo é uma violação tanto na França quanto na Venezuela. Entretanto, quando ocorre em alguma democracia acima da linha do Equador, a violência se assenta serenamente no imaginário popular. É esse tipo de incoerência que o Diretório Social tenta trazer à luz. Por isso dizemos que a nossa batalha se dá no campo das idéias.
Procuramos trabalhar os conceitos que permeiam o imaginário popular. Acreditamos que uma das principais formas de corrupção está na inversão de prioridades, e isso só ocorre sem reação popular porque a opinião pública é trabalhada antes de levar um golpe.
Infelizmente, em nosso país, cultivamos uma idéia pobre de modernização, onde é mais importante para o país ter uma frota de carros moderna do que ter transporte público de qualidade.
A nossa idéia de moderno permite que o governo gaste construindo trem bala dinheiro que poderia ser destinado a transporte urbano digno para a população.
Com a copa do mundo, queremos impressionar turistas com estádios modernos, obras faraônicas e infraestrutura de primeiro mundo ligando aeroporto-estádio, enquanto os trabalhadores continuarão antes, durante e depois da copa se apertando diariamente em ônibus sucateados para ir ao trabalho.
Chegamos a um ponto que não estamos investindo nas pessoas, e sim na Copa. Quando o governo vai anunciar uma obra para a população, sempre ressalta que ficará pronta antes da Copa do Mundo. Não há preocupação se aquela maternidade ficará pronta antes da mãe dar à luz, ou se a escola ficará pronta antes da criança completar 6 anos, ou se a universidade ficará pronta antes do adolescente abandonar a escola para ajudar em casa ou ir para as drogas.
De alguma forma, o Brasil quer mostrar ao mundo que se modernizou. Quer mostrar ao mundo que possui o que há de mais luxuoso em estádios, hotéis e transporte. Tudo isso com apoio da população.
O Diretório Social procura tratar política de forma simples, porque julgamos que política é simples. Um eleitor pode não entender de orçamento, de Nota de Empenho, SIAFI, inflação, arrecadação, dívida pública e outros termos, mas o mais simples eleitor sabe a diferença que existe entre a construção de um estádio luxuoso no centro e a construção de um posto de saúde na comunidade em que mora. Tudo é questão de bom senso e prioridade. Política é cuidar das crianças, preservar o meio-ambiente.
Acreditamos que a modernidade de um povo não se mede pela equação de celulares per capita, e sim pelo grau de alfabetização das pessoas, pela baixa mortalidade infantil e população atendida por saneamento básico, água potável e distribuição de renda.
Acreditamos que a maior corrupção de todas é a corrupção das prioridades, que anestesia a consciência das pessoas, e as fazem acreditar que a curto, médio ou longo prazo a construção de um estádio se tornará mais vantajosa que a construção de um hospital. Tomados de uma apatia social, como se tivéssemos sido submetidos a uma lobotomia, em nossas mentes a idéia de que promover uma copa gerará mais emprego e atrairá mais investimentos do que construir escolas. Por falta de educação, 70% da nossa economia se sustenta pelas commodities: uma verdadeira situação colonial.
Tudo isso está nos conceitos. A mídia feudal brasileira dedica semanas expondo a derrubada de pés de laranja plantados em terra “grilada”, enquanto que as mortes em conflitos agrários são divulgadas em vinhetas ou notas de rodapé. Para essa mídia, pés de laranjas são mais importantes do que as pessoas. Isso porque o arsenal da comunicação do país está nas mãos de políticos, empresários e ruralistas. Nossa informação está concentrada em verdadeiros feudos midiáticos que se dedicam a criminalizar tudo o que for de interesse popular e social.
Fomos anestesiados ao preconceito contra negros, probres, deficientes e outras minorias. Entendemos que esse movimento de “afirmação” dos negros é mais comercial do que social. O fato de existir cosméticos voltados para o público negro e uma “estética negra” nos faz acreditar que superamos o problema do preconceito.
Da mesma forma os pobres. A falsa idéia de oportunidade para todos faz com que o pobre se sinta responsável pela própria pobreza. O fato de termos urnas eletrônicas nos faz acreditar que vivemos uma democracia. Entendemos que não há democracia com uma multidão de esfomeados, crianças fora da escola e jovens sem esperança. Democracia é participação.
Além disso, somos contrários à idéia de que serviço público é serviço de pobre. Quando um ônibus lotado encosta no ponto e alguém se recusa a se pendurar nele, os demais passageiros se tornam hostis contra o colega, e não contra o transporte público. Quando exigimos um mínimo de dignidade no serviço público a resposta que ouvimos é sempre para que procuremos o serviço particular. Embora nos custe muito caro, conseguiram nos convencer de que serviço público é um fracasso por natureza e que só se vale dele quem realmente não tem condições de pagar por um serviço privado.
Somos contra a privatização dos direitos essenciais da democracia. Todos têm direito a escola, saúde e transporte dignos. Não existe democracia em um país onde os pobres trabalham para o dinheiro e o dinheiro “trabalha” para os ricos. Não há igualdade de oportunidades em um país onde uma criança desfrutará de educação integral e outra terá de abandonar a escola para ajudar a família.
Nossas reflexões buscam resgatar as pessoas dessa apatia social, reanimar a capacidade de reagir.
Por isso, se você se identificou com esses ideais, tudo o que precisamos fazer é ajudar promover essa reflexão. Nas palavras de John Lennon, “você pode dizer que sou um sonhador, mas não sou o único”.