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sábado, 26 de março de 2011

Liberalismo ou protecionismo?

Pior do que viver em um modelo neoliberal é não poder desfrutar das promessas desse magnífico sistema. Explico: o Estado não pode interferir na economia porque é um grave pecado contra a livre iniciativa. No capitalismo, a economia se tornou o novo Leviatã. O Estado não está mais a serviço do cidadão, e sim do mercado. Mas alguma coisa é estranha no nosso liberalismo. Algo precisa ser explicado. O Estado não pode ter sua própria frota de transporte coletivo porque isso é um assunto que interessa à livre iniciativa. Mas ao mesmo tempo, protege esse negócio concentrando o transporte nas mãos de alguns magnatas que juram operar no prejuízo. Fica uma provocação: se estamos numa terra de livre iniciativa, por que diabos o governo não estrutura uma agência reguladora de transporte, estabelecendo critérios que permitam a qualquer cidadão prestar esse serviço?
Quando as empresas que detêm o monopólio são intimadas a oferecer dignidade à população, os xeiques do transporte alegam que a coisa está insustentável e que estão operando no vermelho, falatório que sempre leva ao aumento das tarifas. Já que o transporte só dá prejuízo, o que dizer do transporte pirata? Fica o desafio: por que nosso Estado não honra o liberalismo, garantindo a qualquer cidadão que preencha os requisitos mínimos de segurança, o direito de trabalhar também no prejuízo? Isso sim é proteção à livre iniciativa. O modelo atual é, na verdade, um protecionismo aos barões do transporte, sem nenhum compromisso com a população. Quem sabe, assim, teríamos transporte de qualidade, para que o trabalhador possa se deslocar com dignidade e preços acessíveis.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Uma curiosidade sobre a lógica neoliberal

Diz a regra neoliberal que as coisas não funcionam nas mãos do Estado. Bom negócio mesmo é aquele administrado pela iniciativa privada. Quem duvida é convocado a constatar a diferença entre as escolas, estradas e hospitais públicos e privados. Além disso, dizem que a privatização salvou a telecomunicação e a mineração no país. Enfim, há um consenso de que o Estado não tem competência para gerir nada.
Mas toda regra possui uma exceção. O hemocentro de Brasília, por exemplo, desmascara esse mito e mostra que repartições públicas podem ser eficientes, sim. A unidade proporciona excelência no atendimento, dispõe de sistema informatizado, oferece ótimas instalações, e os funcionários esbanjam competência, agilidade e cortesia. O que determina o sucesso ou fracasso de uma gestão não é se ela é pública ou privada, mas uma lógica curiosa:
A nossa alta sociedade, isto é, nossos nobres deputados, juízes e empresários não admitem que seus filhos dividam uma sala de aula com o filho do pedreiro, da empregada doméstica ou do gari. Na lógica liberal, recurso público destinado ao pobre é puro desperdício. Por outro lado, quando se vêem diante da necessidade de uma transfusão de sangue, ninguém pergunta se o doador é pobre, negro, nordestino ou analfabeto. Nessa hora, um espírito "mais-que-natalino" esconde embaixo do tapete todas as diferenças genéticas, sociais e culturais. De repente todos nos tornamos uma única família. Se o pobre é bem tratado no hemocentro e morre na fila do hospital público, só podemos concluir de que esse sangue vai correr em veias nobres. Para essa gente, dinheiro público só é bem aplicado quando é para sangrar ainda mais o pobre. E no caso do hemocentro, literalmente. No Brasil é assim: quando se fala em transferência de sangue, somos todos irmãos, mas quando se fala em transferência de renda, uns são humanos, outros são macacos.