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domingo, 1 de janeiro de 2012

Tudo o que o homem semear...

Tudo o que o homem semear, isso também ceifará. O texto é de Gálatas, e possui outras variações, mas a mensagem é a mesma: colhemos aquilo que plantamos. Geralmente fazemos uma interpretação individual desse texto e, convenientemente, aplicamos aos outros.
É possível que muitos problemas sociais pudessem ser resolvidos se tivéssemos a honestidade de admitir que os provocamos.
Vivemos trancafiados pelo medo da violência, mas esquecemos que ela ocorre por causa da miséria, da falta de educação e de oportunidades.
Nossas crianças estudam meio período, e passam boa parte do dia sem nenhuma opção criativa. Elas não têm oportunidades de cultura ou lazer, e são educadas por uma mídia que está o tempo inteiro chamando de caretice os valores que nos restam. "Acaso poderá uma árvore má dar bons frutos?", perguntou Cristo.
Esse foi o caminho que escolhemos. Chamamos de "exclusivo" o que há de melhor, sem nos darmos conta de que com isso promovemos um culto à exclusão. Cultuamos também a imagem descontraída e inofensiva da "loira gelada" e do cigarro, para depois nos assustamos com a notícia de que adolescentes experimentam essas drogas cada vez mais cedo. Acaso foram essas crianças abduzidas e viciadas por extraterrestres ou são apenas fruto da nossa cultura esquizofrênica? Assim, podemos finalizar com uma frase bem interessante, cujo autor desconheço: Todo mundo pensa em deixar um planeta melhor para nossos filhos… Quando é que pensarão em deixar filhos melhores para o nosso planeta?

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ainda sobre qualificação...

De vez em quando, alguma revista ou reportagem de TV mostra algum brasileiro bem sucedido no exterior. A notícia quase sempre é feita em tom patriótico, como se fosse um orgulho nacional ver uma estrela brasileira brilhando em céu estrangeiro.
Com vaidade descobrimos que um coritibano está por trás do projeto “Natal”, que se transformou no Kinect, um novo paradigma em Games criado pela poderosa Microsoft. Por esse mesmo sentimento, sentimo-nos co-produtores de "Rio", a animação de sucesso dirigida por um carioca em estúdios americanos. Quase sempre a reação é de orgulho. Não dizemos que é sempre porque quando o craque do nosso time vai jogar na Europa a nossa sensação é de pesar.
Esses e tantos outros exemplos mostram que, no Brasil, quando algum profissional atinge alta qualificação, ao invés de exportarmos o resultado do seu trabalho, exportamos o próprio profissional, para depois importarmos o resultado de seu trabalho.
Notícias como essas, ao invés de orgulho, deveriam gerar em nós constrangimento. Primeiro, porque o sonho de se tornar médico, engenheiro, astronauta ou inventor quase sempre esbarra na exclusão, no abandono escolar, no trabalho infantil ou na prostituição.
Deixando para trás uma multidão de excluídos, os poucos que conseguem alta qualificação não conseguem atuar em suas áreas. O número de profissionais altamente qualificados é tão pouco que é mais fácil encontrar uma boa oportunidade no mercado externo do que encontrar aqui as condições necessárias para produzir. Por falta de condições, se dois engenheiros elétricos se formam na mesma turma, possivelmente um fará carreira em uma multinacional enquanto seu colega de turma se dedicará a trocar capacitores em radinhos. Isso porque não existem, no Brasil, as condições para que esses dois se unam para criar, inovar, produzir e exportar.
Infelizmente, no Brasil, a formação acadêmica é sempre vista como um passaporte e nunca como um direito fundamental, tão necessário quanto saneamento básico. No imaginário popular, a formação acadêmica está mais associada ao mérito de um esforço colossal do que ao exercício de cidadania. Infelizmente, até alguns daqueles que se educaram alimentam um estranho sentimento de que educação deve continuar sendo um caminho árduo. Afinal, se foi difícil pra mim, porque teria de ser fácil para os outros?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Brasil colônia

O Governo Federal editou recentemente uma medida provisória que promove incentivos fiscais à mais nova mania no ramo da informática: os tablets. A idéia é não só popularizar os aparelhos, mas também fomentar a sua produção nacional. Entretanto, recente matéria publicada no Correio Braziliense mostra que um dos principais desafios é a falta de mão de obra qualificada.
Enquanto isso, deputados da bancada ruralista defendem um Código Florestal mais flexível, argumentando que, ao lado da produção mineral, o agronegócio tem sido responsável pelo desempenho da economia brasileira.
Não mencionamos os dois fatos simplesmente porque acontecem em um mesmo tempo, mas sim para chamar atenção para a condição colonial em que nos encontramos.
Por causa do descaso com a educação, o Brasil tem uma indústria deficiente. É justamente por isso que somos obrigados a extrair recursos naturais e enviar para o estrangeiro numa escala cada vez maior. Não educamos o nosso povo e por isso não desenvolvemos a nossa indústria. As nossas referências continuam sendo agricultura, minério... e carnaval.
Para a fabricação dos tablets, o Brasil dispõe de um poderoso Polo Industrial, recursos naturais, integração territorial, fontes de energia e um exército de gente desqualificada. Investimos em estradas, avançamos em telecomunicações, modernizamos nossos equipamentos, aperfeiçoamos nossas leis, mas abandonamos as pessoas. Por isso as nossas florestas pagam a conta desse descaso. Para competir no mercado global, continuaremos explorando nossa terra até o limite para adquirirmos o que o conhecimento produziu em outro país.
E assim, no cenário global, perpetuamos uma caracteristica essencialmente colonial: exportamos apenas o que extraímos da nossa terra, e não do nosso cérebro.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A loucura dos sábios e a sabedoria dos ignorantes

Muitas pessoas não se interessam por política porque pensam se tratar de algo complicado, e por isso acabam deixando o futuro dos filhos nas mãos de cientistas e economistas, o que é um erro grosseiro.
Repare à sua volta que os pais que tiveram menos instrução são os mais dispostos a fazer qualquer sacrifício pela boa educação dos filhos. Um pai analfabeto jamais deixaria de comprar material escolar para o filho para lhe comprar brinquedo. Por mais que consideremos essas pessoas simples, elas sabem reconhecer aquilo que é importante.
Infelizmente a gestão pública não é norteada por esse mesmo sentimento. Poucos políticos têm esse compromisso com as pessoas. Administradores se esquecem do que é simples e muitas vezes gerenciam os recursos públicos como se vivessem em outra dimensão. Com o único propósito de impressionar turistas com conforto e velocidade, planejam trem-bala com dinheiro do contribuinte que perde 4 horas diárias espremido em engarrafamento no percurso para o trabalho. Abandonam as escolas porque estão ocupados, competindo para ver quem constrói o estádio mais moderno para a Copa. Falam em inclusão digital, como se o Brasil tivesse superado a inclusão social, como se não existisse mais ninguém em total indigência.
Salvam bancos e multinacionais de crises que eles mesmos causaram com especulação, com o dinheiro arrecadado dos trabalhadores e micro-empresários, que sobrevivem como podem aos juros e às instabilidades do mercado. Enfim, a deturpação das prioridades levou nossa auto-estima à falência. Precisamos resgatar nossa capacidade de acreditar no futuro. A questão não é a reforma política, e sim uma reforma nas prioridades políticas. Não é questão de eleger colecionadores de diplomas, e sim de ter a humildade de reaprender com os mais simples como realizar aquilo que é mais importante.

domingo, 15 de maio de 2011

Higienópolis: retrato de uma elite deseducada

Engana-se quem pensa que no Brasil educação é coisa de gente rica. Os ricos do Brasil não são educados. Eles cursam universidade, tornam-se escritores, empresário, intelectuais, poliglotas, políticos, economistas, juristas e doutores, mas boa parte nunca chega a ter educação de verdade. A educação tem por finalidade humanizar as pessoas. Torná-las civilizadas.
No Brasil não existe educação nem para os pobres nem para os ricos. Não existe para os pobres porque não existe escolas suficientes, nem vagas, nem infraestrutura, e nem professores, nem recursos. Às vezes existe a escola, mas não existe política para manter as crianças, que são obrigadas a abandonar a escola para ajudar em casa, seja trabalhando, pedindo ou se prostituindo.
Para os ricos a coisa é diferente. Existe escola, recurso, infraestrutura, professor, data-show, laboratórios, feira de ciência, livro didático, merenda e reforço escolar, mas não existe educação.
Não existe educação porque as pessoas não saem das universidades civilizadas. Saem com diploma, com carreira e futuro promissor, apenas. Graduam-se cheias de preconceitos. Vivem reclusas em condomínios de luxo, carros blindados, cercas elétricas. Reproduzem preconceitos contra nordestinos, contra pobres, contra homoafetivos, contra negros.
É só observar os noticiários. Tem estudante de direito que acha que paulista tem sangue melhor que nordestino, como virou notícia. Deveria estar cursando novamente o ensino fundamental. Tenho minhas dúvidas também quanto ao nível educacional de moradores de bairro nobre, que acham que a construção de uma linha do metrô desvalorizará o mercado imobiliário porque vai atrair "gente diferenciada". Tem jornalista nervoso porque agora "qualquer miserável tem carro". Tem empresário bem sucedido no agronegócio comemorando exportação de soja, enquanto milhões de brasileiros estão desnutridos.
A instrução da nossa elite ensina a se tornar rico. Falta mesmo é educação, aquela que ensina a se tornar humano.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Nosso moderno Elogio da Loucura

A alta no preço do petróleo e o fantasma da inflação reacendem nas conversas de botequim a questão dos nossos impostos. A população não agüenta mais. O sentimento é de saturação, fomentado principalmente pela mídia, que repete exaustivamente que a nossa carga tributária é a causa de nosso país produzir pouco e o consumo se tornar caro. Para manter esse sentimento, existe até o “impostômetro”, que dá ao brasileiro a noção do montante que sai do nosso bolso para os cofres públicos.
É triste também que nosso dinheiro tenha tão pouco valor quando se torna público. Nós não nos conformamos ao ver nosso dinheiro se tornando escolas ruins, hospitais lotados e rodovias assassinas. Mas curiosamente, assistimos com encanto ver nosso dinheiro se tornando contos de fadas em forma de mansões, carros de luxo e festas regadas a muita droga. Não estamos falando de traficantes e nem de políticos. Estamos falando dos nossos ídolos.
Afinal, quem paga tudo isso? Trabalhamos duro a semana inteira, abastecemos nosso carro com indignação, revoltamo-nos contra as rodovias, hospitais e escolas, mas curiosamente conseguimos relaxar e nos entreter vendo os programas dominicais mostrando a vida perdulária de artistas exibindo suas mansões, jogadores de futebol em suas Ferraris, apresentadores e animadores de auditório com salários a partir de 500 mil e que desconhecem o significado de teto salarial. Quem paga essa conta? Alguém dirá que o salário é merecido e que isso é dinheiro de publicidade. Novamente perguntamos: quem paga essa conta?
Na sala de espera do dentista, as revistas de fofocas funcionam como pré-anestésicas. Ver o quão pomposo foi o casamento de um artista, de que país foi importada a champanhe e saber quem foi o estilista e quanto custou o vestido são encantos capazes de tirar a tensão causada por aquele barulhinho da broca.
Sabemos bem que nosso imposto não retorna em serviços da melhor qualidade. Mas que retorno tem para a população o custo que pagamos pela publicidade que se esconde atrás dos impostos? O talento dos marqueteiros consegue maquiar esse custo e canalizar toda a indignação do consumidor nos tributos.
Tornamo-nos ariscos na hora de pagar a conta das nossas estradas, mas somos dóceis vendo nossas celebridades debocharem do nosso dinheiro com casamentos extravagantes e carros de luxo. Alguém tem uma explicação?

terça-feira, 3 de maio de 2011

Misturando um pouco de política com religião

Um dos maiores prejuízos para a nossa sociedade, sem dúvida alguma, é a idéia de que precisa ser intelectual para falar sobre algum assunto. Temos aquela ingênua noção de que a verdade está nas mãos dos catedráticos, e por causa desse preconceito  pagamos um preço muito alto.
Contando com a compreensão do leitor que não é cristão, faremos uma pequena comparação entre a Igreja e a Política.
Jesus Cristo foi um homem simples. Exceto um ligeiro comentário sobre sua infância "no meio dos doutores", Cristo se cercava das pessoas simples. Ele não se levantava na multidão para falar de exegese, escatologia, homilética, soteriologia, pneumatologia ou hermenêutica. Na verdade ele nem fazia questão de conversar com os fariseus, que eram os donos da verdade da época. Ele estava onde as pessoas precisavam dele. Ele deixava os intelectuais para falar com a estrangeira, com a prostituta ou com o cego impertinente. Esse é o Jesus bíblico. Mas, santo Deus, o que foi que fizemos com ele? como fomos capazaes de sepultá-lo novamente? Hoje, ao invés de ensinar a prática do amor, as pregações cristãs se tornaram uma verborragia puramente intelectualóide.
O mesmo ocorreu com a política. A política nasce com o sentimento de coletividade, de cidadania. Fazer política é cuidar das pessoas, educar as crianças, pensar no futuro com otimismo. Entretanto, os cansados trabalhadores se tornaram rebanho nas mãos de economistas. Nosso catecismo diário se tornou ver no Jornal Nacional como fechou a bolsa de Tóquio, as decisões do COPOM ou o índice de Dow Jones.  Afinal, por que não divulgam diariamente os índices atuais de crianças famintas ou de analfabetos? Ensinaram que temos que nos calar porque não entendemos o que é superávit primário, PIB, Selic, Ibovespa, etc. E dissemos amém para tudo isso.
Mas assim como Jesus disse que da boca dos pequeninos é que sai o perfeito louvor, arriscaria dizer que ninguém mais do que o trabalhador sabe o que é melhor para seu filho. Nossos intelectuais nos convenceram de que construir estádios trará desenvolvimento e dinamismo para o Brasil. O mais modesto homem do campo dirá que é uma escola. Quem está com a razão?

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A República das Bananas

Não conheço brasileiro que não se ofenda com a nossa imagem primitiva no exterior. Nos filmes de Hollywood somos os jardineiros, imigrantes ilegais, narcotraficantes. Nos noticiários internacionais somos o país da violência, da corrupção, que não sabe receber turista. Nossos símbolos são futebol, carnaval e prostituição.
Realmente, tal redução ofende a nossa riqueza cultural. Ainda assim, convidamos a colocar de lado a nossa indignação e a fazer uma reflexão.
Enquanto nos esforçamos para manter tudo o que é supérfluo em padrões europeus, permitimos que escolas, transportes, hospitais e saneamento básico continuem em padrões pré-históricos.
Optamos por um conceito excêntrico de modernidade. Gastamos com modernas urnas eletrôncias, mas permitimos que o eleitor vá votar com fome e desinformado. Gastamos com transmissores digitais, mas permitimos que a comunicação seja uníssona e unilateral, concentrada nas mãos de conglomerados enquanto as comunidades e movimentos sociais são silenciados. Gastamos em laptops para promover inclusão digital e permitimos que crianças continuem nos semáforos no horário escolar, por falta de vaga ou de merenda. Brasília se endividará fazendo um trem para impressionar estrangeiros durante a copa do mundo, enquanto o transporte de massas continuará ineficiente para seu próprio povo. Permitimos que nossas universidades financiem a formação de cirurgiões estéticos, que ficarão ricos enquanto o povo continuará aguardando anos por tratamentos tão simples que Hipócrates já realizava na Grécia, há 500 anos antes de Cristo. Enfim, quando se leva em conta as nossas prioridades e os nossos projetos, chegamos à triste conclusão de que realmente somos mais bem descritos como uma república de bananas do que uma nação séria e comprometida com seu povo.
Hoje, com a atuação dos órgãos de controle e instrumentos de transparência, já não permitimos que o nosso dinheiro seja roubado, agora precisamos estabelecer mecanismos para que ele não seja mal gasto.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Qual é a reforma mais urgente?

Se dermos um pouco de crédito aos noticiários e à classe política, tudo indica que o Brasil deverá passar por grandes reformas nos próximos anos. Fala-se muito, ultimamente, em reforma política e reforma tributária, mas existem também temas que não estão na moda, mas nem por isso deixam de ser populares, como reforma agrária e dos meios de comunicação. De todas as reformas que arrisquei enumerar, alguns motivos que me levam a crer que a mais urgente é a reforma dos meios de comunicação.
O motivo é simples: essas reformas promoverão transformações estruturais no país. Não estamos falando de reparo em um museu ou da construção de uma ponte. Estamos falando de transformações que afetarão toda a população, inclusive as próximas gerações.
Durante o período militar, por decisões extremamente concentradas o país assumiu dívidas históricas, na maioria das vezes contraídas para financiar projetos totalmente desalinhados com as prioridades da época e o interesse nacional. Pela arbitrariedade de um governo, ainda hoje uma nação inteira trabalha para arcar com essa dívida. Isso não é justo.
Não podemos repetir esse erro histórico. Temos uma grande responsabilidade com o futuro do país. Por isso, entendo que o pré-requisito para todas as reformas é o esclarecimento e o envolvimento da população. Enquanto a opinião pública continuar sendo controlada pelos mesmos feudos midiáticos que apoiaram a ditadura, a população será vítima de um golpe após o outro. Só haverá debate de verdade e participação das massas com a democratização dos meios de comunicação. Portanto, comecemos o debate com a Reforma das Comunicações.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Capitalismo e Socialismo na Teoria e na Prática

É incômodo perceber como nosso modelo educacional nos doutrinou a enxergar a economia. Sempre vemos socialismo por um dos seguintes modos: ou mencionamos como uma bárbara e fracassada ditadura marcada por atrasos e violação a direitos humanos, coerção à liberdade e à religião, ou então como um absurdo ilógico e impraticável conto de fadas. Para nos livrar desse horror, até rebatizaram a palavra utopia, ampliando o significado de algo que não existe para significar algo que jamais poderá existir, tal qual um conto infantil, coisa de juventude “revoltadinha” ou então, no máximo, como ingenuidade intelectual.
Da mesma forma, fomos doutrinados a enxergar apenas dois modelos de capitalismo: ou o capitalismo dos livros, belíssima teoria onde se exalta a liberdade individual e a livre iniciativa, ou então o modelo norte-americano, apresentado como a terra das oportunidades, da abundância (leia-se desperdício), onde para ser próspero é só uma questão de vontade.
No socialismo, violência, despotismo e ausência de liberdade são partes integrantes, atributos inerentes, intrínsecos, imanentes ao próprio sistema. Ninguém se habilita a explicar como um país pobre como Cuba sobrevive com índice de desenvolvimento humano elevado, tendo um povo instruído e baixa mortalidade infantil. Mas quando se fala em capitalismo, a pujança econômica se deve unicamente à formidável coerência interna do sistema, enquanto que temas como fome, corrupção, desnutrição, mortalidade infantil e favela são meros acidentes, causados pela indolência do próprio povo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Bom senso*

Como mero colaborador, permito-me estender um “pouco” mais em meu(s) texto(s) do que o anfitrião do sítio.
A meu ver, e tentando casar um pouco as informações já postadas por aqui, a sociedade brasileira passa por um momento de grande falta de bom senso, e, em minha visão, explica algumas (não todas) das considerações já tecidas pelo proprietário deste diretório.
Vemos a falta de bom senso quando há discriminação, em pleno século XXI, a pessoas – seja por classe econômica, cor de pele, opção sexual, opção religiosa, etc.; quando parlamentares aumentam o próprio salário deixando a míngua prioridades nacionais; quando o país se preocupa mais em promover eventos como Olimpíadas e Copa do Mundo de Futebol do que investir em educação ou saúde. Enfim...
Um exemplo recente da existência de atitudes infames como essas foi a postagem, na rede mundial de computadores (através da rede social Twitter), de autoria da estudante de Direito Mayara Petruso, do seguinte comentário: “Nordestisto não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado!” (sic).
Que ela possua essa opinião, em minha visão, não é problema. O problema foi a forma de externá-la.
Acredito na liberdade lato sensu. Entretanto, por mais que a liberdade de expressão exista, ela não está por aí, rodando, a bel prazer de quem ousa usá-la. Há um custo ao usá-la. E esse custo é o respeito.
Em minha mente posso cometer os crimes mais sinistros, mais atrozes e inimagináveis de tão perplexos e torturantes. Contudo, não posso pô-los em prática. Talvez externá-los de determinado modo dê bons livros de terror, mas, ao dizer que gostaria de cometer qualquer desses crimes a determinada pessoa não estou mais exercendo liberdade de expressão. Exerço ameaça. Cometo desrespeito.
Da mesma forma assim acontece com determinadas opiniões, que, ao ultrapassar as cordas vocais e atingir o lado externo da boca ganham outra significação. Tal qual o caso do tweet da estudante acima citada.

Ao descrever tal comentário ela não apenas emitiu sua opinião. Ela desrespeitou um determinado grupo de cidadãos, que, assim como ela, são feitos de células, tecidos, conjuntos, órgãos; se alimentam; vivem; pagam impostos; votam, etc. Coisas que ela (e milhares de outras pessoas) também fazem.
Em suma: ultrapassou os limites da liberdade, desrespeitando o próximo.
E aí entra o bom senso (a falta dele, melhor dizendo). Não gostar de alguém (específico ou não) é normal. Todos temos gostos e opinões e a realidade é que não se consegue agradar a todos.
Externá-las numa rede mundial, em que a informação é disseminada a velocidades surpreendentes, demonstra uma falta de senso sem tamanho e, infelizmente, rotineira na sociedade brasileira. Nesse caso, em específico, a ausência de bom senso foi tamanha que houve comentários em noticiários estrangeiros...
Mas a falta de bom senso não fica adstrita a apenas esse tipo de ação ou pessoa.
É possível perceber a ausência de bom senso quando os dirigentes do país se preocupam mais em aprovar os próprios salários a fazer reformas que sejam benéficas a sua população (população que, direta ou indiretamente, os designou como representantes).
É maior ainda a ausência de senso dos administradores do país quando fizeram de tudo para trazer os dois maiores eventos esportivos do mundo para serem sediados no país enquanto os hospitais sofrem com a também ausência de leitos, remédios, médicos capacitados; enquanto o país ocupa uma das piores colocações em índices de leitura; enquanto a maioria dos municípios é deficitário em saneamento básico...
Não que esses eventos não tragam benefícios aos países que o sediam. Longe disso. Ou ao menos é o que se espera. Haverão melhorias na infraestrutura de transportes (rodoviário, aeroviário, ferroviário, aquaviário), melhoria na saúde e outras áreas – tudo exigência das agências esportivas para que seja possível a realização dos eventos.
Entretanto pairam duas dúvidas muito pontuais: 1ª Era mesmo necessário termos sido escolhidos sede desses eventos para, enfim, “colocarmos ordem na casa” e realizar as ações que, seja por lei, seja por obrigação moral ou social, estamos obrigados a cumprir?; 2ª Por que tanto dispêndio de esforços para a realização desses eventos (ou a celeridade na aprovação dos próprios proventos) se nas ações ordinárias, costumeiras e necessárias, não é o que se constata?
Mais uma vez a falta de bom senso (e começo a acreditar que seja falta de senso mesmo) se mostra bem clara…
Findarei por aqui para não me alongar demais e a fim de evitar a fadiga do leitor.
Que 2011 nos traga fartura de bom senso (Ou apenas senso já nos bastaria? Ou talvez esse escritor tenha usado erroneamente a expressão “bom senso” quando queria dizer “educação”?! A dúvida pode permanecer… mas a realidade é que se a nossa população for beneficiada por qualquer uma dessas dádivas humanas, nosso país só tem a ganhar!)

*Rafael Alves

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UPP: Unidade do Plim-Plim

O governo do Rio de Janeiro anunciou a construção de mais uma Unidade de Polícia Pacificadora, UPP. A 13ª unidade será construída na Vila Isabel, em frente ao Centro Integrado de Educação Pública, CIEP.
Os Brizolões, como ficaram conhecidos os CIEPs, foram um projeto educacional idealizado por Darcy Ribeiro e implantados pelo então governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola.
Os prédios concebidos por Oscar Niemeyer possuiam três edifícios: o primeiro era uma estrutura de três pavimentos que abrigava salas de aula, centro médico, cozinha, refeitório e áreas de recreação. Outro edifício consistia em um ginásio esportivo e no terceiro funcionava uma biblioteca e os dormitórios.
O foco do projeto era tirar crianças das ruas. Cada uma das 500 unidades, construídas em lugares pobres, oferecia educação integral, de 8 às 17 horas, em que o currículo regular era enriquecido com atividades culturais, esportivas e estudos dirigidos. Além das três refeições diárias, as crianças mais carentes contavam com banhos, dormitórios e até "pais sociais". Difícil acreditar, mas isso existiu no Brasil.
Não era simplesmente uma escola. Tratava-se do projeto educacional mais ambicioso que já saiu do papel: 500 unidades foram construídas nas periferias.
A reação de Roberto Marinho foi imediata: O "jornalista" não poupou esforços para convencer a opinião pública de que os projetos teriam sido construídos com propósitos eleitorais, uma vez que eram instalados em áreas pobres. Segundo o comandante do plim-plim, Brizola era um senil, e já não tinha tanta lucidez . Era visionário de um projeto caro para o Estado. Muito dinheiro para se desperdiçar com educação. A Veja não ficou atrás, e a capa de uma edição mostrava Brizola como um dinossauro da política.
Assim, não demorou muito para que os governantes, numa  notória demonstração de genialidade, percebessem que era mais econômico acabar com o ensino integral e oferecer ensino em turnos, multiplicando o número de alunos.
A Vila Isabel volta a receber um investimento do Estado. Agora com o louvor do Plim-Plim, porque  não se trata de ressuscitar a senil idéia de Brizola, e sim de instalar o que há de mais moderno no conceito de segurança pública: uma unidade policial.
Educação: a gente não vê por aqui.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Se Deus não existe, tudo é permitido?

A política de criminalização parece apenas revelar o fracasso da educação como processo civilizatório. Demonstração disso é que a punição e a reclusão são apresentadas com louvor como a solução para a harmonia social.
A famosa pergunta de Dostoiévski, "Se Deus não existe, tudo é permitido?", parece nortear a análise de Freud no "Mal estar na civilização". No texto, Freud questiona a punição como forma de garantir a convivência, uma vez que só tem validade enquanto se faz presente.
Em outras palavras, a preocupação de Freud recai sobre que tipo de comportamento esperar do homem quando este não estiver sob a vigilância do Estado, ou quando sua consciência estiver livre do aprisionamento causado pelo temor de Deus. A punição só garante a convivência enquanto se faz presente. Assim, basta a certeza da impunidade para que o homem esteja inteiramente livre para praticar tudo aquilo que desejar.
Freud propõe, entretanto, que as pulsões sejam controladas através de um processo de racionalização. Quando o homem internaliza a idéia de que o homicídio não é algo desejável, ainda que o Estado desapareça, ainda que não exista lei nem divindade a quem deva prestar contas, ele não cometeria, pois seria uma prática reprovada no âmbito da sua consciência.
Enquanto a educação for vista apenas como meio de "subir na vida", sem compromisso com um projeto civilizatório, continuaremos buscando a coesão social pela violência das leis. E lamentavelmente nosso horizonte não é dos melhores. Vemos acalorado clamor pela criminalização da homofobia, criminalização da xenofobia, redução de maioridade penal e pena de morte. Mas qualquer tentativa de resolver esses problemas através da educação soa como utopia e ingênuo idealismo. Lamentavemente, no nosso cenário social, a punição aparece como protagonista enquanto a educação não passa de figurante. O orgulho de leis duras esconde, na verdade, uma confissão vergonhosa de uma educação fracassada.

sábado, 13 de novembro de 2010

O verdadeiro compromisso dos empresários com a educação

Ficou para trás o tempo em que era de interesse de uma classe dominante manter uma massa ignorante. Assim como "ética", a palavra "educação" está na moda, e propostas como escola técnica e universidade rendem votos.
A grande questão é saber a serviço de quem a educação está. O Brasil mudou nos últimos anos, e as necessidades de mercado também mudaram. Alguns empregos exigem uma certa qualificação e pagam salários razoáveis. Como não há muitas pessoas preparadas para ocupar esses empregos, o empresário não pode se dar ao luxo de dizer ao empregado "se não quiser, outro quer".
Nesse ponto, entra a educação. Quanto mais gente preparada, mais gente na fila, mais gente concorrendo ao mesmo posto, reduzindo drasticamente os salários. Esse é o único compromisso dos grandes empresários com a educação.
A educação não deve ser promovida com o fim de gerar "recursos humanos", e sim dentro de um propósito civilizatório. Formar técnicos só vai fazer uns poucos "subirem na vida", dando a ligeira impressão de que o Brasil é um país de oportunidades. Uma educação de joelhos para o mercado nunca vai contribuir na redução das desigualdades.