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domingo, 1 de janeiro de 2012

Tudo o que o homem semear...

Tudo o que o homem semear, isso também ceifará. O texto é de Gálatas, e possui outras variações, mas a mensagem é a mesma: colhemos aquilo que plantamos. Geralmente fazemos uma interpretação individual desse texto e, convenientemente, aplicamos aos outros.
É possível que muitos problemas sociais pudessem ser resolvidos se tivéssemos a honestidade de admitir que os provocamos.
Vivemos trancafiados pelo medo da violência, mas esquecemos que ela ocorre por causa da miséria, da falta de educação e de oportunidades.
Nossas crianças estudam meio período, e passam boa parte do dia sem nenhuma opção criativa. Elas não têm oportunidades de cultura ou lazer, e são educadas por uma mídia que está o tempo inteiro chamando de caretice os valores que nos restam. "Acaso poderá uma árvore má dar bons frutos?", perguntou Cristo.
Esse foi o caminho que escolhemos. Chamamos de "exclusivo" o que há de melhor, sem nos darmos conta de que com isso promovemos um culto à exclusão. Cultuamos também a imagem descontraída e inofensiva da "loira gelada" e do cigarro, para depois nos assustamos com a notícia de que adolescentes experimentam essas drogas cada vez mais cedo. Acaso foram essas crianças abduzidas e viciadas por extraterrestres ou são apenas fruto da nossa cultura esquizofrênica? Assim, podemos finalizar com uma frase bem interessante, cujo autor desconheço: Todo mundo pensa em deixar um planeta melhor para nossos filhos… Quando é que pensarão em deixar filhos melhores para o nosso planeta?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Violência só gera violência

Se um povo que resolve as coisas na violência não pode ser considerado civilizado, então creio que não somos civilizados, pois a violência faz parte do nosso cotidiano.
Acolhemos em nosso país estudantes que vão às ruas para fazer barulho. Recentemente os jornais exibiam uma filmagem em que uma mulher arrancava à força uma jovem do metrô porque estava sentada em assento preferencial. No entorno de Brasília, trabalhadores bloqueiam ruas, interrompem o trânsito e queimam pneus em protesto contra falta de prestação de serviços públicos. Enfim, parecemos mesmo um bando de selvagens.
Essa violência causa alarde, toma conta dos noticiários e nos envergonha muito. Mas não é dessa violência que estamos falando. Nós nos acomodamos e fomos doutrinados de tal maneira que enxergamos apenas uma face da violência. Achamos uma brutalidade uma mulher forçar uma jovem a se levantar de um assento destinado a idosos, mas não vemos como violência o fato de privar uma idosa de se sentar no assento a que tem direito.
Consideramos uma selvageria ver trabalhadores incendiando ônibus, mas somos tapados para a violência que os barões do transporte praticam contra o trabalhador, apartado do direito de ir e vir porque não tem dinheiro pra comprar carro.
Vemos com profundo pesar monstros bloqueando estradas, ateando fogo em pneus, mas nos parece muito normal ver cidadãos sem transporte, saúde, educação ou saneamento básico. Criminalizamos nossos movimentos sociais porque lutam por terra, mas saudamos com louvor os latifundiários do agronegócio, que escravizam pessoas famintas para mandar o melhor de nossa terra para alimentar gado europeu. Da próxima vez que nos disserem “violência só gera violência”, lembremos que a violência social começa com a violação dos direitos fundamentais.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UPP: Unidade do Plim-Plim

O governo do Rio de Janeiro anunciou a construção de mais uma Unidade de Polícia Pacificadora, UPP. A 13ª unidade será construída na Vila Isabel, em frente ao Centro Integrado de Educação Pública, CIEP.
Os Brizolões, como ficaram conhecidos os CIEPs, foram um projeto educacional idealizado por Darcy Ribeiro e implantados pelo então governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola.
Os prédios concebidos por Oscar Niemeyer possuiam três edifícios: o primeiro era uma estrutura de três pavimentos que abrigava salas de aula, centro médico, cozinha, refeitório e áreas de recreação. Outro edifício consistia em um ginásio esportivo e no terceiro funcionava uma biblioteca e os dormitórios.
O foco do projeto era tirar crianças das ruas. Cada uma das 500 unidades, construídas em lugares pobres, oferecia educação integral, de 8 às 17 horas, em que o currículo regular era enriquecido com atividades culturais, esportivas e estudos dirigidos. Além das três refeições diárias, as crianças mais carentes contavam com banhos, dormitórios e até "pais sociais". Difícil acreditar, mas isso existiu no Brasil.
Não era simplesmente uma escola. Tratava-se do projeto educacional mais ambicioso que já saiu do papel: 500 unidades foram construídas nas periferias.
A reação de Roberto Marinho foi imediata: O "jornalista" não poupou esforços para convencer a opinião pública de que os projetos teriam sido construídos com propósitos eleitorais, uma vez que eram instalados em áreas pobres. Segundo o comandante do plim-plim, Brizola era um senil, e já não tinha tanta lucidez . Era visionário de um projeto caro para o Estado. Muito dinheiro para se desperdiçar com educação. A Veja não ficou atrás, e a capa de uma edição mostrava Brizola como um dinossauro da política.
Assim, não demorou muito para que os governantes, numa  notória demonstração de genialidade, percebessem que era mais econômico acabar com o ensino integral e oferecer ensino em turnos, multiplicando o número de alunos.
A Vila Isabel volta a receber um investimento do Estado. Agora com o louvor do Plim-Plim, porque  não se trata de ressuscitar a senil idéia de Brizola, e sim de instalar o que há de mais moderno no conceito de segurança pública: uma unidade policial.
Educação: a gente não vê por aqui.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Violência no Rio ultrapassa os limites... da pobreza

O confronto entre policiais e traficantes no Rio de Janeiro deixa o país estarrecido e coloca, mais uma vez, a cidade nos jornais do mundo inteiro.
Enquanto os traficantes barbarizam a cidade, a polícia se mobiliza para retomar os territórios com força total, mostrando que, de fato, se trata de uma guerra.
A nossa reflexão começa novamente pelo tratamento que a mídia dá ao assunto. O Rio de Janeiro jamais terá sucesso no combate à violência enquanto a imprensa continuar chamando os ataques de “onda de violência”. Trata-se, novamente, de um modo elitista de compreender a tragédia como se fosse um evento isolado e passageiro, que se resolve com leis mais duras e repressão policial. A violência só preocupa quando atravessa as fronteiras da miséria e atinge a sociedade. Nunca é um problema quando fica restrita aos morros. O que acontece quando a violência atravessa a linha da pobreza? Dizemos que ela passou dos limites! Aqui não estamos falando de intensidade, mas exatamente de limites geográficos. Dentro da favela tudo pode acontecer, mas quando o pânico cruza a linha da pobreza e chega à sociedade, dizemos que os traficantes passaram do limite. Por isso chamamos os pobres de excluídos: porque onde moram não há lei, não há direito, nem cidadania e, portanto, não representam problema. São indigentes, que só entram em escola para votar, nunca para estudar. A realidade é que o narcotráfico possui mais política inclusiva que o Estado. Os problemas dos pobres só se tornam questões sociais quando atingem os ricos.
Agora, diante dessa barbárie, entre ensurdecedoras explosões eis que surge na população um clima de incerteza e insegurança, eixo norteador de todos os problemas do Rio, que se resume em uma única questão fundamental: como esconder o problema e fazer bonito na copa do mundo?