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domingo, 1 de janeiro de 2012

Tudo o que o homem semear...

Tudo o que o homem semear, isso também ceifará. O texto é de Gálatas, e possui outras variações, mas a mensagem é a mesma: colhemos aquilo que plantamos. Geralmente fazemos uma interpretação individual desse texto e, convenientemente, aplicamos aos outros.
É possível que muitos problemas sociais pudessem ser resolvidos se tivéssemos a honestidade de admitir que os provocamos.
Vivemos trancafiados pelo medo da violência, mas esquecemos que ela ocorre por causa da miséria, da falta de educação e de oportunidades.
Nossas crianças estudam meio período, e passam boa parte do dia sem nenhuma opção criativa. Elas não têm oportunidades de cultura ou lazer, e são educadas por uma mídia que está o tempo inteiro chamando de caretice os valores que nos restam. "Acaso poderá uma árvore má dar bons frutos?", perguntou Cristo.
Esse foi o caminho que escolhemos. Chamamos de "exclusivo" o que há de melhor, sem nos darmos conta de que com isso promovemos um culto à exclusão. Cultuamos também a imagem descontraída e inofensiva da "loira gelada" e do cigarro, para depois nos assustamos com a notícia de que adolescentes experimentam essas drogas cada vez mais cedo. Acaso foram essas crianças abduzidas e viciadas por extraterrestres ou são apenas fruto da nossa cultura esquizofrênica? Assim, podemos finalizar com uma frase bem interessante, cujo autor desconheço: Todo mundo pensa em deixar um planeta melhor para nossos filhos… Quando é que pensarão em deixar filhos melhores para o nosso planeta?

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Brasília e seu governador "ad hoc"

Causa náusea transitar por Brasília. Os longos engarrafamentos proporcionam aos motoristas e passageiros de ônibus superlotados tempo mais do que suficiente para examinar cada detalhe dos outdoors que o governo andou espalhando pela cidade. Mesmo os que não dão atenção aos outdoors não escapam da publicidade do GDF. A programação matinal do rádio também está infestada da publicidade governamental.
Acumulando as condições de ex-ministro dos esportes, lamentavelmente, de ex-comunista e, esperamos que futuramente ex-governador, o atual governo do DF transformou o palácio do Buriti em um gabinete de assuntos para a Copa do Mundo. A publicidade institucional estampada em outdoors ou na tevê e no rádio leva à impressão de que a máquina administrativa está voltada para os jogos de 2014.
A situação piora quando lemos as notícias mostram as viagens oficiais e os discursos do governador. Das viagens, podemos citar duas: uma visita à Alemanha, para se inspirar “in loco” em um estádio de futebol de primeiro mundo. Outra, à China, uma espécie de lobby internacional para trazer a abertura do mundial e os jogos de 2016 para Brasília.
Quanto aos discursos, a náusea é ainda mais intensa: Os cursos de capacitação oferecidos à população não são para educar, gerar emprego, melhorar a saúde, transporte, qualificar ou fomentar o comércio, e sim para adestrar as pessoas na arte de adular turistas. Com relação as obras, funciona assim: Se uma calçada vai ser construída, é importante destacar que ficará pronta antes da Copa. Se uma via ganhará iluminação, fiquem todos sabendo que ficará pronta antes da Copa. Não importa se um posto de saúde ficará pronto a tempo de acolher uma futura mãe para que tenha o filho com dignidade. O recado é claro: que se lixe a população que trabalha e que sustenta a cidade, o importante é saber se ficará pronto antes dos jogos.
Os outdoors servem também para que as passageiras de ônibus tenham uma prévia do nosso novo estádio de futebol e talvez esqueçam que estão sendo “encoxadas” (molestadas) pela lotação a que são submetidas, ou então para que todos se distraiam quando forem obrigados a descer do ônibus que despencou durante a viagem.
Enfim, os esforços atuais do governo se destinam a introjetar esse estúpido orgulho de uma capital pronta para a Copa, na tentativa de maquiar a vergonha de um sistema de transporte caótico, saúde deficiente e educação falida.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Nosso moderno Elogio da Loucura

A alta no preço do petróleo e o fantasma da inflação reacendem nas conversas de botequim a questão dos nossos impostos. A população não agüenta mais. O sentimento é de saturação, fomentado principalmente pela mídia, que repete exaustivamente que a nossa carga tributária é a causa de nosso país produzir pouco e o consumo se tornar caro. Para manter esse sentimento, existe até o “impostômetro”, que dá ao brasileiro a noção do montante que sai do nosso bolso para os cofres públicos.
É triste também que nosso dinheiro tenha tão pouco valor quando se torna público. Nós não nos conformamos ao ver nosso dinheiro se tornando escolas ruins, hospitais lotados e rodovias assassinas. Mas curiosamente, assistimos com encanto ver nosso dinheiro se tornando contos de fadas em forma de mansões, carros de luxo e festas regadas a muita droga. Não estamos falando de traficantes e nem de políticos. Estamos falando dos nossos ídolos.
Afinal, quem paga tudo isso? Trabalhamos duro a semana inteira, abastecemos nosso carro com indignação, revoltamo-nos contra as rodovias, hospitais e escolas, mas curiosamente conseguimos relaxar e nos entreter vendo os programas dominicais mostrando a vida perdulária de artistas exibindo suas mansões, jogadores de futebol em suas Ferraris, apresentadores e animadores de auditório com salários a partir de 500 mil e que desconhecem o significado de teto salarial. Quem paga essa conta? Alguém dirá que o salário é merecido e que isso é dinheiro de publicidade. Novamente perguntamos: quem paga essa conta?
Na sala de espera do dentista, as revistas de fofocas funcionam como pré-anestésicas. Ver o quão pomposo foi o casamento de um artista, de que país foi importada a champanhe e saber quem foi o estilista e quanto custou o vestido são encantos capazes de tirar a tensão causada por aquele barulhinho da broca.
Sabemos bem que nosso imposto não retorna em serviços da melhor qualidade. Mas que retorno tem para a população o custo que pagamos pela publicidade que se esconde atrás dos impostos? O talento dos marqueteiros consegue maquiar esse custo e canalizar toda a indignação do consumidor nos tributos.
Tornamo-nos ariscos na hora de pagar a conta das nossas estradas, mas somos dóceis vendo nossas celebridades debocharem do nosso dinheiro com casamentos extravagantes e carros de luxo. Alguém tem uma explicação?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Bom senso*

Como mero colaborador, permito-me estender um “pouco” mais em meu(s) texto(s) do que o anfitrião do sítio.
A meu ver, e tentando casar um pouco as informações já postadas por aqui, a sociedade brasileira passa por um momento de grande falta de bom senso, e, em minha visão, explica algumas (não todas) das considerações já tecidas pelo proprietário deste diretório.
Vemos a falta de bom senso quando há discriminação, em pleno século XXI, a pessoas – seja por classe econômica, cor de pele, opção sexual, opção religiosa, etc.; quando parlamentares aumentam o próprio salário deixando a míngua prioridades nacionais; quando o país se preocupa mais em promover eventos como Olimpíadas e Copa do Mundo de Futebol do que investir em educação ou saúde. Enfim...
Um exemplo recente da existência de atitudes infames como essas foi a postagem, na rede mundial de computadores (através da rede social Twitter), de autoria da estudante de Direito Mayara Petruso, do seguinte comentário: “Nordestisto não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado!” (sic).
Que ela possua essa opinião, em minha visão, não é problema. O problema foi a forma de externá-la.
Acredito na liberdade lato sensu. Entretanto, por mais que a liberdade de expressão exista, ela não está por aí, rodando, a bel prazer de quem ousa usá-la. Há um custo ao usá-la. E esse custo é o respeito.
Em minha mente posso cometer os crimes mais sinistros, mais atrozes e inimagináveis de tão perplexos e torturantes. Contudo, não posso pô-los em prática. Talvez externá-los de determinado modo dê bons livros de terror, mas, ao dizer que gostaria de cometer qualquer desses crimes a determinada pessoa não estou mais exercendo liberdade de expressão. Exerço ameaça. Cometo desrespeito.
Da mesma forma assim acontece com determinadas opiniões, que, ao ultrapassar as cordas vocais e atingir o lado externo da boca ganham outra significação. Tal qual o caso do tweet da estudante acima citada.

Ao descrever tal comentário ela não apenas emitiu sua opinião. Ela desrespeitou um determinado grupo de cidadãos, que, assim como ela, são feitos de células, tecidos, conjuntos, órgãos; se alimentam; vivem; pagam impostos; votam, etc. Coisas que ela (e milhares de outras pessoas) também fazem.
Em suma: ultrapassou os limites da liberdade, desrespeitando o próximo.
E aí entra o bom senso (a falta dele, melhor dizendo). Não gostar de alguém (específico ou não) é normal. Todos temos gostos e opinões e a realidade é que não se consegue agradar a todos.
Externá-las numa rede mundial, em que a informação é disseminada a velocidades surpreendentes, demonstra uma falta de senso sem tamanho e, infelizmente, rotineira na sociedade brasileira. Nesse caso, em específico, a ausência de bom senso foi tamanha que houve comentários em noticiários estrangeiros...
Mas a falta de bom senso não fica adstrita a apenas esse tipo de ação ou pessoa.
É possível perceber a ausência de bom senso quando os dirigentes do país se preocupam mais em aprovar os próprios salários a fazer reformas que sejam benéficas a sua população (população que, direta ou indiretamente, os designou como representantes).
É maior ainda a ausência de senso dos administradores do país quando fizeram de tudo para trazer os dois maiores eventos esportivos do mundo para serem sediados no país enquanto os hospitais sofrem com a também ausência de leitos, remédios, médicos capacitados; enquanto o país ocupa uma das piores colocações em índices de leitura; enquanto a maioria dos municípios é deficitário em saneamento básico...
Não que esses eventos não tragam benefícios aos países que o sediam. Longe disso. Ou ao menos é o que se espera. Haverão melhorias na infraestrutura de transportes (rodoviário, aeroviário, ferroviário, aquaviário), melhoria na saúde e outras áreas – tudo exigência das agências esportivas para que seja possível a realização dos eventos.
Entretanto pairam duas dúvidas muito pontuais: 1ª Era mesmo necessário termos sido escolhidos sede desses eventos para, enfim, “colocarmos ordem na casa” e realizar as ações que, seja por lei, seja por obrigação moral ou social, estamos obrigados a cumprir?; 2ª Por que tanto dispêndio de esforços para a realização desses eventos (ou a celeridade na aprovação dos próprios proventos) se nas ações ordinárias, costumeiras e necessárias, não é o que se constata?
Mais uma vez a falta de bom senso (e começo a acreditar que seja falta de senso mesmo) se mostra bem clara…
Findarei por aqui para não me alongar demais e a fim de evitar a fadiga do leitor.
Que 2011 nos traga fartura de bom senso (Ou apenas senso já nos bastaria? Ou talvez esse escritor tenha usado erroneamente a expressão “bom senso” quando queria dizer “educação”?! A dúvida pode permanecer… mas a realidade é que se a nossa população for beneficiada por qualquer uma dessas dádivas humanas, nosso país só tem a ganhar!)

*Rafael Alves