sábado, 26 de março de 2011

Liberalismo ou protecionismo?

Pior do que viver em um modelo neoliberal é não poder desfrutar das promessas desse magnífico sistema. Explico: o Estado não pode interferir na economia porque é um grave pecado contra a livre iniciativa. No capitalismo, a economia se tornou o novo Leviatã. O Estado não está mais a serviço do cidadão, e sim do mercado. Mas alguma coisa é estranha no nosso liberalismo. Algo precisa ser explicado. O Estado não pode ter sua própria frota de transporte coletivo porque isso é um assunto que interessa à livre iniciativa. Mas ao mesmo tempo, protege esse negócio concentrando o transporte nas mãos de alguns magnatas que juram operar no prejuízo. Fica uma provocação: se estamos numa terra de livre iniciativa, por que diabos o governo não estrutura uma agência reguladora de transporte, estabelecendo critérios que permitam a qualquer cidadão prestar esse serviço?
Quando as empresas que detêm o monopólio são intimadas a oferecer dignidade à população, os xeiques do transporte alegam que a coisa está insustentável e que estão operando no vermelho, falatório que sempre leva ao aumento das tarifas. Já que o transporte só dá prejuízo, o que dizer do transporte pirata? Fica o desafio: por que nosso Estado não honra o liberalismo, garantindo a qualquer cidadão que preencha os requisitos mínimos de segurança, o direito de trabalhar também no prejuízo? Isso sim é proteção à livre iniciativa. O modelo atual é, na verdade, um protecionismo aos barões do transporte, sem nenhum compromisso com a população. Quem sabe, assim, teríamos transporte de qualidade, para que o trabalhador possa se deslocar com dignidade e preços acessíveis.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Capitalismo e Socialismo na Teoria e na Prática

É incômodo perceber como nosso modelo educacional nos doutrinou a enxergar a economia. Sempre vemos socialismo por um dos seguintes modos: ou mencionamos como uma bárbara e fracassada ditadura marcada por atrasos e violação a direitos humanos, coerção à liberdade e à religião, ou então como um absurdo ilógico e impraticável conto de fadas. Para nos livrar desse horror, até rebatizaram a palavra utopia, ampliando o significado de algo que não existe para significar algo que jamais poderá existir, tal qual um conto infantil, coisa de juventude “revoltadinha” ou então, no máximo, como ingenuidade intelectual.
Da mesma forma, fomos doutrinados a enxergar apenas dois modelos de capitalismo: ou o capitalismo dos livros, belíssima teoria onde se exalta a liberdade individual e a livre iniciativa, ou então o modelo norte-americano, apresentado como a terra das oportunidades, da abundância (leia-se desperdício), onde para ser próspero é só uma questão de vontade.
No socialismo, violência, despotismo e ausência de liberdade são partes integrantes, atributos inerentes, intrínsecos, imanentes ao próprio sistema. Ninguém se habilita a explicar como um país pobre como Cuba sobrevive com índice de desenvolvimento humano elevado, tendo um povo instruído e baixa mortalidade infantil. Mas quando se fala em capitalismo, a pujança econômica se deve unicamente à formidável coerência interna do sistema, enquanto que temas como fome, corrupção, desnutrição, mortalidade infantil e favela são meros acidentes, causados pela indolência do próprio povo.