segunda-feira, 24 de junho de 2013

É possível exercer política apartidária?


Embora seja simpática a idéia de uma mobilização apartidária, onde todos se abraçam em torno de uma sociedade mais justa, isso me parece algo perigoso. Não apenas nas manifestações atuais, onde se exaltou a idéia de apartidarismo, mas vemos reflexo dessa noção também na ‘rede’ proposta por Marina Silva, um partido que evita o nome de partido, para parecer uma proposta mais simpática e, consequentemente, faturar em cima dessa rejeição.
Mas por que defender o partidarismo a essa altura? Algum deles seria digno de defesa? Não. Não escrevo isso por achar que algum partido seja digno de ser defendido, mas porque o partido político parece uma espécie de fiador eleitoral.
Explico.
Ao ler a biografia de um candidato, posso até chegar a conclusões bastante convincentes quanto à sua moralidade, sua integridade ou sua honestidade. Com a internet então, posso pesquisar a vida inteira de um sujeito. Mas isso só me diz coisas do seu passado. Uma pessoa bem intencionada pode até ser um bom propositor de leis. Mas quando escolho um representante, não me limito a pensar se ele vai propor leis proibindo o fumo em local público, ou se vai fazer um projeto de lei obrigando que seja afixado aviso na porta de elevador. O meu representante votará matérias importantes, como a reforma política, reforma judiciária, a redução da maioridade penal, a PEC 37 etc. E a honestidade dele não me diz nada sobre isso. Não se trata apenas de ser honesto ou bem intencionado, mas de orientação ideológica. Sem partido, meu parlamentar é imprevisível. Sua biografia me diz sobre o seu passado, mas quando voto, estou votando no futuro, de modo que preciso saber o que esperar daquele representante. Preciso saber como ele irá se posicionar não apenas com relação às suas promessas ou quanto às antigas questões que já tramitam, mas, sobretudo, como ele irá se comportar diante das questões que ainda não surgiram, das quais não é possível sequer imaginar. Assim, sem uma cor que identifique o meu candidato, sem um logotipo, sem um rótulo, não sei o que esperar dele, não tenho um parâmetro para cobrar dele, não posso sequer medir se ele está sendo fiel ou não ao mandato que lhe confiei, uma vez que ele pode, com toda a honestidade e boa intenção, votar em algo totalmente contrário ao que espero. O fato de amar os animais e a causa verde não me permite inferir como o candidato vai enfrentar as demais questões. É por isso que não acredito na política da pura honestidade sem partido.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Wittgenstein e Lewandoski

O ministro Lewandowski e Ludwig Wittgenstein não compartilham apenas um nome impronunciável. O filósofo ficou lembrado pela frase: "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar". Por outro lado, essa mesma frase tem sido a maldição do juiz.
Prova disso é a enquete promovida por uma revista:
José Dirceu foi o chefe do esquema do mensalão? SIM/NÃO.
Ora, diz a Constituição Federal/88, que ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal.
O que credenciaria o pobre leitor a emitir sua opinião?
Na verdade, a mídia já condenou todo mundo. Do Banco Rural, foram denunciados desde o mais alto escalão até os funcionários chamados "mequetrefes". Se dependesse da acusação, teríamos a condenação sumária dos executivos, dos funcionários administrativos, do pessoal da limpeza, da moça do café, do carteiro, do motorista, dos correntistas do banco e até de eventuais transeuntes.
Fica a impressão de quem não leu o processo: Ao contrário da gestão fraudulenta e da lavagem de dinheiro, em que os votos se fundamentaram em provas, as 60 mil páginas do processo parecem não trazer mais do que referências a coincidências entre saques e votações.
Nisso parece haver a presença da falácia "post hoc propter hoc", que traduz uma má aplicação da lógica. A propósito, vamos pensar nas sentenças:
Sempre que chove, a rua fica molhada / A rua está molhada / Logo, choveu.
O problema desse raciocínio é que a rua pode estar molhada por outra causa (uma mangueira, um caminhão pipa, ou outra razão). É por isso que em nenhum livro de lógica esse silogismo seria válido. Wittgenstein diria que esse raciocínio não seria válido em nenhum mundo possível! De modo que o apelo à coincidência para condenar um acusado constitui um um fracasso epistemológico.
A mídia já riscou três princípios constitucionais, que tratam da presunção da inocência, do devido processo legal e da individualização da pena.
Agora não poupa esforços para jogar a opinião pública contra o Ministro Ricardo Lewandowski simplesmente porque ele expressa seu juizo.
Juízo, aliás, é o que falta às pessoas que condenam uma pessoa em enquete com base em reportagens e deduções falaciosas.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Tudo o que o homem semear...

Tudo o que o homem semear, isso também ceifará. O texto é de Gálatas, e possui outras variações, mas a mensagem é a mesma: colhemos aquilo que plantamos. Geralmente fazemos uma interpretação individual desse texto e, convenientemente, aplicamos aos outros.
É possível que muitos problemas sociais pudessem ser resolvidos se tivéssemos a honestidade de admitir que os provocamos.
Vivemos trancafiados pelo medo da violência, mas esquecemos que ela ocorre por causa da miséria, da falta de educação e de oportunidades.
Nossas crianças estudam meio período, e passam boa parte do dia sem nenhuma opção criativa. Elas não têm oportunidades de cultura ou lazer, e são educadas por uma mídia que está o tempo inteiro chamando de caretice os valores que nos restam. "Acaso poderá uma árvore má dar bons frutos?", perguntou Cristo.
Esse foi o caminho que escolhemos. Chamamos de "exclusivo" o que há de melhor, sem nos darmos conta de que com isso promovemos um culto à exclusão. Cultuamos também a imagem descontraída e inofensiva da "loira gelada" e do cigarro, para depois nos assustamos com a notícia de que adolescentes experimentam essas drogas cada vez mais cedo. Acaso foram essas crianças abduzidas e viciadas por extraterrestres ou são apenas fruto da nossa cultura esquizofrênica? Assim, podemos finalizar com uma frase bem interessante, cujo autor desconheço: Todo mundo pensa em deixar um planeta melhor para nossos filhos… Quando é que pensarão em deixar filhos melhores para o nosso planeta?

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Brasília e seu governador "ad hoc"

Causa náusea transitar por Brasília. Os longos engarrafamentos proporcionam aos motoristas e passageiros de ônibus superlotados tempo mais do que suficiente para examinar cada detalhe dos outdoors que o governo andou espalhando pela cidade. Mesmo os que não dão atenção aos outdoors não escapam da publicidade do GDF. A programação matinal do rádio também está infestada da publicidade governamental.
Acumulando as condições de ex-ministro dos esportes, lamentavelmente, de ex-comunista e, esperamos que futuramente ex-governador, o atual governo do DF transformou o palácio do Buriti em um gabinete de assuntos para a Copa do Mundo. A publicidade institucional estampada em outdoors ou na tevê e no rádio leva à impressão de que a máquina administrativa está voltada para os jogos de 2014.
A situação piora quando lemos as notícias mostram as viagens oficiais e os discursos do governador. Das viagens, podemos citar duas: uma visita à Alemanha, para se inspirar “in loco” em um estádio de futebol de primeiro mundo. Outra, à China, uma espécie de lobby internacional para trazer a abertura do mundial e os jogos de 2016 para Brasília.
Quanto aos discursos, a náusea é ainda mais intensa: Os cursos de capacitação oferecidos à população não são para educar, gerar emprego, melhorar a saúde, transporte, qualificar ou fomentar o comércio, e sim para adestrar as pessoas na arte de adular turistas. Com relação as obras, funciona assim: Se uma calçada vai ser construída, é importante destacar que ficará pronta antes da Copa. Se uma via ganhará iluminação, fiquem todos sabendo que ficará pronta antes da Copa. Não importa se um posto de saúde ficará pronto a tempo de acolher uma futura mãe para que tenha o filho com dignidade. O recado é claro: que se lixe a população que trabalha e que sustenta a cidade, o importante é saber se ficará pronto antes dos jogos.
Os outdoors servem também para que as passageiras de ônibus tenham uma prévia do nosso novo estádio de futebol e talvez esqueçam que estão sendo “encoxadas” (molestadas) pela lotação a que são submetidas, ou então para que todos se distraiam quando forem obrigados a descer do ônibus que despencou durante a viagem.
Enfim, os esforços atuais do governo se destinam a introjetar esse estúpido orgulho de uma capital pronta para a Copa, na tentativa de maquiar a vergonha de um sistema de transporte caótico, saúde deficiente e educação falida.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bullying ideológico

Temos a impressão de que o bullying não está presente somente nas escolas infantis ou entre adolescentes. Se percebermos como alguns posicionamentos sociais são tratados, percebemos que pessoas idealistas também são vítimas de uma espécie de bullying.
Já na alegoria da caverna, Platão teria esboçado que aquele que contemplara a luz poderia se tornar vítima de violência quando retornasse à caverna descrevendo a experiência. Sócrates foi hostilizado por amar a verdade. Chegou a se tornar uma caricatura ambulante porque afirmava ouvir o seu “espírito interior”. Sem razão Jesus também foi hostilizado. Sofreu todo tipo de ultraje por anunciar o amor, respeito e tolerância.
Século XXI. Confundimos amadurecimento humano com evolução tecnológica. Com isso nos tornamos arrogantes primatas. Desfilamos com engenhocas que nos permite monitorar nosso patrimônio a quilômetros, enquanto ignoramos a fome que berra ao nosso lado. Evoluímos tecnologicamente na redução das distâncias físicas. Mas retrocedemos na questão humana, criando abismos entre pessoas.
Não só perdemos a capacidade de acreditar em um mundo melhor, mas também cometemos bullying contra aqueles que ainda acreditam. Quando alguém fala que é possível acabar com a pobreza, somos tomados de um conformismo, que chamamos de “senso de realidade” e logo dizemos que não, que não é possível, que é pura fantasia, pura ingenuidade. Com isso, cometemos uma espécie de bullying contra as pessoas que acreditam, e destruímos a oportunidade de uma real evolução humana.
Primeiro fomos convencidos de que a miséria é parte integrante da sociedade. Fizeram-nos acreditar que educação, respeito, amor, ecologia e mundo melhor não passam de ingenuidade própria de contos da carochinha. Aqueles que acreditam nessas coisas são simplesmente ridicularizados, hostilizados, vítimas de uma espécie de “bullying ideológico”. As conseqüências são as mesmas do bullying: desânimo, apatia, isolamento, silêncio.
Depois domesticamos a nossa capacidade de lutar, criminalizamos os movimentos sociais e passamos a tratar os inconformados como terroristas. Promovemos um verdadeiro elogio à covardia, que carinhosamente chamamos de civilização.
Por fim, diante das inegáveis evidências de fracasso, hoje cultuamos os mesmos ídolos que trouxeram destruição. Eles reinventaram o amor e chamam de tolerância. Reinventaram a educação, chamando de escolaridade, reinventaram a ecologia como “sustentabilidade”. Reinventaram o sonho de um mundo melhor e chamaram “crescimento econômico”. Mas os utópicos que falam em educação, ecologia e mundo melhor continuam sendo vítimas de bullying. A razão parece sempre estar com aqueles que tornam as coisas mais complicadas.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ainda sobre qualificação...

De vez em quando, alguma revista ou reportagem de TV mostra algum brasileiro bem sucedido no exterior. A notícia quase sempre é feita em tom patriótico, como se fosse um orgulho nacional ver uma estrela brasileira brilhando em céu estrangeiro.
Com vaidade descobrimos que um coritibano está por trás do projeto “Natal”, que se transformou no Kinect, um novo paradigma em Games criado pela poderosa Microsoft. Por esse mesmo sentimento, sentimo-nos co-produtores de "Rio", a animação de sucesso dirigida por um carioca em estúdios americanos. Quase sempre a reação é de orgulho. Não dizemos que é sempre porque quando o craque do nosso time vai jogar na Europa a nossa sensação é de pesar.
Esses e tantos outros exemplos mostram que, no Brasil, quando algum profissional atinge alta qualificação, ao invés de exportarmos o resultado do seu trabalho, exportamos o próprio profissional, para depois importarmos o resultado de seu trabalho.
Notícias como essas, ao invés de orgulho, deveriam gerar em nós constrangimento. Primeiro, porque o sonho de se tornar médico, engenheiro, astronauta ou inventor quase sempre esbarra na exclusão, no abandono escolar, no trabalho infantil ou na prostituição.
Deixando para trás uma multidão de excluídos, os poucos que conseguem alta qualificação não conseguem atuar em suas áreas. O número de profissionais altamente qualificados é tão pouco que é mais fácil encontrar uma boa oportunidade no mercado externo do que encontrar aqui as condições necessárias para produzir. Por falta de condições, se dois engenheiros elétricos se formam na mesma turma, possivelmente um fará carreira em uma multinacional enquanto seu colega de turma se dedicará a trocar capacitores em radinhos. Isso porque não existem, no Brasil, as condições para que esses dois se unam para criar, inovar, produzir e exportar.
Infelizmente, no Brasil, a formação acadêmica é sempre vista como um passaporte e nunca como um direito fundamental, tão necessário quanto saneamento básico. No imaginário popular, a formação acadêmica está mais associada ao mérito de um esforço colossal do que ao exercício de cidadania. Infelizmente, até alguns daqueles que se educaram alimentam um estranho sentimento de que educação deve continuar sendo um caminho árduo. Afinal, se foi difícil pra mim, porque teria de ser fácil para os outros?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Brasil colônia

O Governo Federal editou recentemente uma medida provisória que promove incentivos fiscais à mais nova mania no ramo da informática: os tablets. A idéia é não só popularizar os aparelhos, mas também fomentar a sua produção nacional. Entretanto, recente matéria publicada no Correio Braziliense mostra que um dos principais desafios é a falta de mão de obra qualificada.
Enquanto isso, deputados da bancada ruralista defendem um Código Florestal mais flexível, argumentando que, ao lado da produção mineral, o agronegócio tem sido responsável pelo desempenho da economia brasileira.
Não mencionamos os dois fatos simplesmente porque acontecem em um mesmo tempo, mas sim para chamar atenção para a condição colonial em que nos encontramos.
Por causa do descaso com a educação, o Brasil tem uma indústria deficiente. É justamente por isso que somos obrigados a extrair recursos naturais e enviar para o estrangeiro numa escala cada vez maior. Não educamos o nosso povo e por isso não desenvolvemos a nossa indústria. As nossas referências continuam sendo agricultura, minério... e carnaval.
Para a fabricação dos tablets, o Brasil dispõe de um poderoso Polo Industrial, recursos naturais, integração territorial, fontes de energia e um exército de gente desqualificada. Investimos em estradas, avançamos em telecomunicações, modernizamos nossos equipamentos, aperfeiçoamos nossas leis, mas abandonamos as pessoas. Por isso as nossas florestas pagam a conta desse descaso. Para competir no mercado global, continuaremos explorando nossa terra até o limite para adquirirmos o que o conhecimento produziu em outro país.
E assim, no cenário global, perpetuamos uma caracteristica essencialmente colonial: exportamos apenas o que extraímos da nossa terra, e não do nosso cérebro.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Antônio Palocci: Um mal necessário?

Em março de 2006, o Antônio Palocci deixava o governo Lula sob a acusação de quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos, testemunha em um processo que poderia comprometer o então Ministro da Fazenda. A repercussão do caso, derrubou o Ministro, entretanto, não impediu que fosse eleito Deputado Federal pelo Estado de São Paulo naquele ano.
Nas eleições de 2010, enquanto a mídia lutava a todo custo para evitar a eleição de Dilma, especulando uma possível volta de José Dirceu ao governo, era Palocci que vinha crescendo. Eleita presidente, o ex-ministro ressurge como o homem mais forte do governo Dilma.
Não é preciso ser nenhum analista político para saber de onde vem a força do bem sucedido ministro-consultor: seu bom relacionamento com o mercado. Basta verificar quem financiou sua campanha em 2006.
Palocci é necessário porque a eleição não é decidida pelos trabalhadores, e sim por banqueiros e empreiteiros. O Ministro voltou mais forte porque o novo leviatã, chamado mercado, mesmo sem possuir título de eleitor, tem mais força que os trabalhadores na hora de decidir uma eleição. Ele é a garantia de que o país não será conduzido pelos mesmos “terroristas” que o golpe de 64 queria evitar.
Não se combate Antônio Palocci com quebra de sigilo bancário, fiscal, depoimento e nem com CPI. A “criptonita” de Palocci é a mobilização dos trabalhadores. Não existe governo realmente comprometido com o interesse social enquanto nosso sistema eleitoral for refém do poder econômico. A única forma de exorcizar Palocci do governo está no velho credo: “proletários, uni-vos!”.

domingo, 22 de maio de 2011

Infiltração social

Graças aos programas de erradicação da miséria, crescimento econômico do país, geração de empregos e expansão do crédito, pessoas que antes eram totalmente excluídas da economia atualmente têm acesso ao consumo. Entretanto, os pobres ainda não foram realmente absorvidos pela sociedade. O que tem ocorrido está mais para uma "infiltração social" do que uma inclusão propriamente dita.
Não houve inclusão social verdadeira porque democracia não se resume a consumo. Como já dissemos em outra oportunidade, o trabalhador tem acesso aos produtos, mas está distante dos meios de produção. Pode comprar um televisor de LED, mas não tem acesso à informação. Tem acesso ao alimento, mas não tem acesso à terra. Existe uma mera relação de consumo, e não de participação efetiva. Seus direitos sociais foram trocados por mercadorias. 
Não houve inclusão social também porque a classe média ainda não acolheu esse novo consumidor. Ao que parece, algumas pessoas se sentem ameaçadas pela distribuição de renda. Temos visto notícias de preconceito porque parte da classe média não aceita dividir a sala de aula com alguém da periferia. Os pobres ainda causam estranheza nos mercados, quando circulam pelos corredores de biscoito e iogurte. São objeto de hostilidade porque têm conta bancária, porque consomem, porque compram carro e porque vão passear. 
Resultado disso é que são covardemente culpados pelas longas filas nos caixas do mercado, pelas filas nos bancos, pela inflação, pelos acidentes, pelos congestionamentos, pela falta de estacionamento e pelo caos nos aeroportos. 
A inclusão social deve ser vista, sobretudo, como reconhecimento da dignidade que há no outro, condição necessária para que os pobres não sejam vistos como alienígenas, e sim como seres humanos.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A loucura dos sábios e a sabedoria dos ignorantes

Muitas pessoas não se interessam por política porque pensam se tratar de algo complicado, e por isso acabam deixando o futuro dos filhos nas mãos de cientistas e economistas, o que é um erro grosseiro.
Repare à sua volta que os pais que tiveram menos instrução são os mais dispostos a fazer qualquer sacrifício pela boa educação dos filhos. Um pai analfabeto jamais deixaria de comprar material escolar para o filho para lhe comprar brinquedo. Por mais que consideremos essas pessoas simples, elas sabem reconhecer aquilo que é importante.
Infelizmente a gestão pública não é norteada por esse mesmo sentimento. Poucos políticos têm esse compromisso com as pessoas. Administradores se esquecem do que é simples e muitas vezes gerenciam os recursos públicos como se vivessem em outra dimensão. Com o único propósito de impressionar turistas com conforto e velocidade, planejam trem-bala com dinheiro do contribuinte que perde 4 horas diárias espremido em engarrafamento no percurso para o trabalho. Abandonam as escolas porque estão ocupados, competindo para ver quem constrói o estádio mais moderno para a Copa. Falam em inclusão digital, como se o Brasil tivesse superado a inclusão social, como se não existisse mais ninguém em total indigência.
Salvam bancos e multinacionais de crises que eles mesmos causaram com especulação, com o dinheiro arrecadado dos trabalhadores e micro-empresários, que sobrevivem como podem aos juros e às instabilidades do mercado. Enfim, a deturpação das prioridades levou nossa auto-estima à falência. Precisamos resgatar nossa capacidade de acreditar no futuro. A questão não é a reforma política, e sim uma reforma nas prioridades políticas. Não é questão de eleger colecionadores de diplomas, e sim de ter a humildade de reaprender com os mais simples como realizar aquilo que é mais importante.