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domingo, 1 de janeiro de 2012

Tudo o que o homem semear...

Tudo o que o homem semear, isso também ceifará. O texto é de Gálatas, e possui outras variações, mas a mensagem é a mesma: colhemos aquilo que plantamos. Geralmente fazemos uma interpretação individual desse texto e, convenientemente, aplicamos aos outros.
É possível que muitos problemas sociais pudessem ser resolvidos se tivéssemos a honestidade de admitir que os provocamos.
Vivemos trancafiados pelo medo da violência, mas esquecemos que ela ocorre por causa da miséria, da falta de educação e de oportunidades.
Nossas crianças estudam meio período, e passam boa parte do dia sem nenhuma opção criativa. Elas não têm oportunidades de cultura ou lazer, e são educadas por uma mídia que está o tempo inteiro chamando de caretice os valores que nos restam. "Acaso poderá uma árvore má dar bons frutos?", perguntou Cristo.
Esse foi o caminho que escolhemos. Chamamos de "exclusivo" o que há de melhor, sem nos darmos conta de que com isso promovemos um culto à exclusão. Cultuamos também a imagem descontraída e inofensiva da "loira gelada" e do cigarro, para depois nos assustamos com a notícia de que adolescentes experimentam essas drogas cada vez mais cedo. Acaso foram essas crianças abduzidas e viciadas por extraterrestres ou são apenas fruto da nossa cultura esquizofrênica? Assim, podemos finalizar com uma frase bem interessante, cujo autor desconheço: Todo mundo pensa em deixar um planeta melhor para nossos filhos… Quando é que pensarão em deixar filhos melhores para o nosso planeta?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bullying ideológico

Temos a impressão de que o bullying não está presente somente nas escolas infantis ou entre adolescentes. Se percebermos como alguns posicionamentos sociais são tratados, percebemos que pessoas idealistas também são vítimas de uma espécie de bullying.
Já na alegoria da caverna, Platão teria esboçado que aquele que contemplara a luz poderia se tornar vítima de violência quando retornasse à caverna descrevendo a experiência. Sócrates foi hostilizado por amar a verdade. Chegou a se tornar uma caricatura ambulante porque afirmava ouvir o seu “espírito interior”. Sem razão Jesus também foi hostilizado. Sofreu todo tipo de ultraje por anunciar o amor, respeito e tolerância.
Século XXI. Confundimos amadurecimento humano com evolução tecnológica. Com isso nos tornamos arrogantes primatas. Desfilamos com engenhocas que nos permite monitorar nosso patrimônio a quilômetros, enquanto ignoramos a fome que berra ao nosso lado. Evoluímos tecnologicamente na redução das distâncias físicas. Mas retrocedemos na questão humana, criando abismos entre pessoas.
Não só perdemos a capacidade de acreditar em um mundo melhor, mas também cometemos bullying contra aqueles que ainda acreditam. Quando alguém fala que é possível acabar com a pobreza, somos tomados de um conformismo, que chamamos de “senso de realidade” e logo dizemos que não, que não é possível, que é pura fantasia, pura ingenuidade. Com isso, cometemos uma espécie de bullying contra as pessoas que acreditam, e destruímos a oportunidade de uma real evolução humana.
Primeiro fomos convencidos de que a miséria é parte integrante da sociedade. Fizeram-nos acreditar que educação, respeito, amor, ecologia e mundo melhor não passam de ingenuidade própria de contos da carochinha. Aqueles que acreditam nessas coisas são simplesmente ridicularizados, hostilizados, vítimas de uma espécie de “bullying ideológico”. As conseqüências são as mesmas do bullying: desânimo, apatia, isolamento, silêncio.
Depois domesticamos a nossa capacidade de lutar, criminalizamos os movimentos sociais e passamos a tratar os inconformados como terroristas. Promovemos um verdadeiro elogio à covardia, que carinhosamente chamamos de civilização.
Por fim, diante das inegáveis evidências de fracasso, hoje cultuamos os mesmos ídolos que trouxeram destruição. Eles reinventaram o amor e chamam de tolerância. Reinventaram a educação, chamando de escolaridade, reinventaram a ecologia como “sustentabilidade”. Reinventaram o sonho de um mundo melhor e chamaram “crescimento econômico”. Mas os utópicos que falam em educação, ecologia e mundo melhor continuam sendo vítimas de bullying. A razão parece sempre estar com aqueles que tornam as coisas mais complicadas.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Antônio Palocci: Um mal necessário?

Em março de 2006, o Antônio Palocci deixava o governo Lula sob a acusação de quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos, testemunha em um processo que poderia comprometer o então Ministro da Fazenda. A repercussão do caso, derrubou o Ministro, entretanto, não impediu que fosse eleito Deputado Federal pelo Estado de São Paulo naquele ano.
Nas eleições de 2010, enquanto a mídia lutava a todo custo para evitar a eleição de Dilma, especulando uma possível volta de José Dirceu ao governo, era Palocci que vinha crescendo. Eleita presidente, o ex-ministro ressurge como o homem mais forte do governo Dilma.
Não é preciso ser nenhum analista político para saber de onde vem a força do bem sucedido ministro-consultor: seu bom relacionamento com o mercado. Basta verificar quem financiou sua campanha em 2006.
Palocci é necessário porque a eleição não é decidida pelos trabalhadores, e sim por banqueiros e empreiteiros. O Ministro voltou mais forte porque o novo leviatã, chamado mercado, mesmo sem possuir título de eleitor, tem mais força que os trabalhadores na hora de decidir uma eleição. Ele é a garantia de que o país não será conduzido pelos mesmos “terroristas” que o golpe de 64 queria evitar.
Não se combate Antônio Palocci com quebra de sigilo bancário, fiscal, depoimento e nem com CPI. A “criptonita” de Palocci é a mobilização dos trabalhadores. Não existe governo realmente comprometido com o interesse social enquanto nosso sistema eleitoral for refém do poder econômico. A única forma de exorcizar Palocci do governo está no velho credo: “proletários, uni-vos!”.

domingo, 15 de maio de 2011

Higienópolis: retrato de uma elite deseducada

Engana-se quem pensa que no Brasil educação é coisa de gente rica. Os ricos do Brasil não são educados. Eles cursam universidade, tornam-se escritores, empresário, intelectuais, poliglotas, políticos, economistas, juristas e doutores, mas boa parte nunca chega a ter educação de verdade. A educação tem por finalidade humanizar as pessoas. Torná-las civilizadas.
No Brasil não existe educação nem para os pobres nem para os ricos. Não existe para os pobres porque não existe escolas suficientes, nem vagas, nem infraestrutura, e nem professores, nem recursos. Às vezes existe a escola, mas não existe política para manter as crianças, que são obrigadas a abandonar a escola para ajudar em casa, seja trabalhando, pedindo ou se prostituindo.
Para os ricos a coisa é diferente. Existe escola, recurso, infraestrutura, professor, data-show, laboratórios, feira de ciência, livro didático, merenda e reforço escolar, mas não existe educação.
Não existe educação porque as pessoas não saem das universidades civilizadas. Saem com diploma, com carreira e futuro promissor, apenas. Graduam-se cheias de preconceitos. Vivem reclusas em condomínios de luxo, carros blindados, cercas elétricas. Reproduzem preconceitos contra nordestinos, contra pobres, contra homoafetivos, contra negros.
É só observar os noticiários. Tem estudante de direito que acha que paulista tem sangue melhor que nordestino, como virou notícia. Deveria estar cursando novamente o ensino fundamental. Tenho minhas dúvidas também quanto ao nível educacional de moradores de bairro nobre, que acham que a construção de uma linha do metrô desvalorizará o mercado imobiliário porque vai atrair "gente diferenciada". Tem jornalista nervoso porque agora "qualquer miserável tem carro". Tem empresário bem sucedido no agronegócio comemorando exportação de soja, enquanto milhões de brasileiros estão desnutridos.
A instrução da nossa elite ensina a se tornar rico. Falta mesmo é educação, aquela que ensina a se tornar humano.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Misturando um pouco de política com religião

Um dos maiores prejuízos para a nossa sociedade, sem dúvida alguma, é a idéia de que precisa ser intelectual para falar sobre algum assunto. Temos aquela ingênua noção de que a verdade está nas mãos dos catedráticos, e por causa desse preconceito  pagamos um preço muito alto.
Contando com a compreensão do leitor que não é cristão, faremos uma pequena comparação entre a Igreja e a Política.
Jesus Cristo foi um homem simples. Exceto um ligeiro comentário sobre sua infância "no meio dos doutores", Cristo se cercava das pessoas simples. Ele não se levantava na multidão para falar de exegese, escatologia, homilética, soteriologia, pneumatologia ou hermenêutica. Na verdade ele nem fazia questão de conversar com os fariseus, que eram os donos da verdade da época. Ele estava onde as pessoas precisavam dele. Ele deixava os intelectuais para falar com a estrangeira, com a prostituta ou com o cego impertinente. Esse é o Jesus bíblico. Mas, santo Deus, o que foi que fizemos com ele? como fomos capazaes de sepultá-lo novamente? Hoje, ao invés de ensinar a prática do amor, as pregações cristãs se tornaram uma verborragia puramente intelectualóide.
O mesmo ocorreu com a política. A política nasce com o sentimento de coletividade, de cidadania. Fazer política é cuidar das pessoas, educar as crianças, pensar no futuro com otimismo. Entretanto, os cansados trabalhadores se tornaram rebanho nas mãos de economistas. Nosso catecismo diário se tornou ver no Jornal Nacional como fechou a bolsa de Tóquio, as decisões do COPOM ou o índice de Dow Jones.  Afinal, por que não divulgam diariamente os índices atuais de crianças famintas ou de analfabetos? Ensinaram que temos que nos calar porque não entendemos o que é superávit primário, PIB, Selic, Ibovespa, etc. E dissemos amém para tudo isso.
Mas assim como Jesus disse que da boca dos pequeninos é que sai o perfeito louvor, arriscaria dizer que ninguém mais do que o trabalhador sabe o que é melhor para seu filho. Nossos intelectuais nos convenceram de que construir estádios trará desenvolvimento e dinamismo para o Brasil. O mais modesto homem do campo dirá que é uma escola. Quem está com a razão?

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A República das Bananas

Não conheço brasileiro que não se ofenda com a nossa imagem primitiva no exterior. Nos filmes de Hollywood somos os jardineiros, imigrantes ilegais, narcotraficantes. Nos noticiários internacionais somos o país da violência, da corrupção, que não sabe receber turista. Nossos símbolos são futebol, carnaval e prostituição.
Realmente, tal redução ofende a nossa riqueza cultural. Ainda assim, convidamos a colocar de lado a nossa indignação e a fazer uma reflexão.
Enquanto nos esforçamos para manter tudo o que é supérfluo em padrões europeus, permitimos que escolas, transportes, hospitais e saneamento básico continuem em padrões pré-históricos.
Optamos por um conceito excêntrico de modernidade. Gastamos com modernas urnas eletrôncias, mas permitimos que o eleitor vá votar com fome e desinformado. Gastamos com transmissores digitais, mas permitimos que a comunicação seja uníssona e unilateral, concentrada nas mãos de conglomerados enquanto as comunidades e movimentos sociais são silenciados. Gastamos em laptops para promover inclusão digital e permitimos que crianças continuem nos semáforos no horário escolar, por falta de vaga ou de merenda. Brasília se endividará fazendo um trem para impressionar estrangeiros durante a copa do mundo, enquanto o transporte de massas continuará ineficiente para seu próprio povo. Permitimos que nossas universidades financiem a formação de cirurgiões estéticos, que ficarão ricos enquanto o povo continuará aguardando anos por tratamentos tão simples que Hipócrates já realizava na Grécia, há 500 anos antes de Cristo. Enfim, quando se leva em conta as nossas prioridades e os nossos projetos, chegamos à triste conclusão de que realmente somos mais bem descritos como uma república de bananas do que uma nação séria e comprometida com seu povo.
Hoje, com a atuação dos órgãos de controle e instrumentos de transparência, já não permitimos que o nosso dinheiro seja roubado, agora precisamos estabelecer mecanismos para que ele não seja mal gasto.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Violência só gera violência

Se um povo que resolve as coisas na violência não pode ser considerado civilizado, então creio que não somos civilizados, pois a violência faz parte do nosso cotidiano.
Acolhemos em nosso país estudantes que vão às ruas para fazer barulho. Recentemente os jornais exibiam uma filmagem em que uma mulher arrancava à força uma jovem do metrô porque estava sentada em assento preferencial. No entorno de Brasília, trabalhadores bloqueiam ruas, interrompem o trânsito e queimam pneus em protesto contra falta de prestação de serviços públicos. Enfim, parecemos mesmo um bando de selvagens.
Essa violência causa alarde, toma conta dos noticiários e nos envergonha muito. Mas não é dessa violência que estamos falando. Nós nos acomodamos e fomos doutrinados de tal maneira que enxergamos apenas uma face da violência. Achamos uma brutalidade uma mulher forçar uma jovem a se levantar de um assento destinado a idosos, mas não vemos como violência o fato de privar uma idosa de se sentar no assento a que tem direito.
Consideramos uma selvageria ver trabalhadores incendiando ônibus, mas somos tapados para a violência que os barões do transporte praticam contra o trabalhador, apartado do direito de ir e vir porque não tem dinheiro pra comprar carro.
Vemos com profundo pesar monstros bloqueando estradas, ateando fogo em pneus, mas nos parece muito normal ver cidadãos sem transporte, saúde, educação ou saneamento básico. Criminalizamos nossos movimentos sociais porque lutam por terra, mas saudamos com louvor os latifundiários do agronegócio, que escravizam pessoas famintas para mandar o melhor de nossa terra para alimentar gado europeu. Da próxima vez que nos disserem “violência só gera violência”, lembremos que a violência social começa com a violação dos direitos fundamentais.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Uma curiosidade sobre a lógica neoliberal

Diz a regra neoliberal que as coisas não funcionam nas mãos do Estado. Bom negócio mesmo é aquele administrado pela iniciativa privada. Quem duvida é convocado a constatar a diferença entre as escolas, estradas e hospitais públicos e privados. Além disso, dizem que a privatização salvou a telecomunicação e a mineração no país. Enfim, há um consenso de que o Estado não tem competência para gerir nada.
Mas toda regra possui uma exceção. O hemocentro de Brasília, por exemplo, desmascara esse mito e mostra que repartições públicas podem ser eficientes, sim. A unidade proporciona excelência no atendimento, dispõe de sistema informatizado, oferece ótimas instalações, e os funcionários esbanjam competência, agilidade e cortesia. O que determina o sucesso ou fracasso de uma gestão não é se ela é pública ou privada, mas uma lógica curiosa:
A nossa alta sociedade, isto é, nossos nobres deputados, juízes e empresários não admitem que seus filhos dividam uma sala de aula com o filho do pedreiro, da empregada doméstica ou do gari. Na lógica liberal, recurso público destinado ao pobre é puro desperdício. Por outro lado, quando se vêem diante da necessidade de uma transfusão de sangue, ninguém pergunta se o doador é pobre, negro, nordestino ou analfabeto. Nessa hora, um espírito "mais-que-natalino" esconde embaixo do tapete todas as diferenças genéticas, sociais e culturais. De repente todos nos tornamos uma única família. Se o pobre é bem tratado no hemocentro e morre na fila do hospital público, só podemos concluir de que esse sangue vai correr em veias nobres. Para essa gente, dinheiro público só é bem aplicado quando é para sangrar ainda mais o pobre. E no caso do hemocentro, literalmente. No Brasil é assim: quando se fala em transferência de sangue, somos todos irmãos, mas quando se fala em transferência de renda, uns são humanos, outros são macacos.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Monocultura ideológica na Terra de Santa Cruz

Um dos princípios básicos da agricultura é que o cultivo de uma única planta é prejudicial ao solo. Mesmo assim, os grandes latifundiários massacram nossa terra com algodão, soja e eucalipto. Mas não fazem isso por ignorância, e sim porque o capital está acima da noção de humanidade.
O nosso povo permite que os interesses econômicos se sobreponham aos interesses sociais porque é vítima de uma monocultura ideológica. A mente é como uma boa terra: se cultivarmos sempre as mesmas idéias, vai aos poucos se tornando estéril. E é isso que acontece quando reproduzimos uma cultura de discurso único.
A concentração de renda e a exclusão dos pobres aos direitos sociais só se tornam viáveis porque existe uma dominação cultural que tenta nos convencer de que as coisas são “assim mesmo”. Por causa da monocultura ideológica, as pessoas simplesmente não conseguem pensar uma sociedade diferente, mesmo que não exista nenhum impedimento lógico ou epistemológico em se pensar uma sociedade justa. Vemos nossas doenças sociais como extensões de fenômenos naturais inevitáveis. Acostumamos a conviver com a fome assim como convivemos com a força da gravidade. Aprendemos que a competitividade imposta pelo capitalismo é algo tão inevitável quanto a seleção natural explicada por Darwin. O desmoronamento de um barraco erguido sobre palafita não causa mais espanto do que uma cheia ou uma maré alta.
Assim como a monocultura agrícola torna o solo estéril, a monocultura ideológica acaba com a fertilidade da nossa mente para qualquer mudança que contrarie interesses econômicos, desarticula as pessoas, e nos torna voluntários servos de um discurso único. Mas assim também como uma terra empobrecida pode ser recuperada pela biodiversidade, podemos recuperar nossa capacidade de reagir e de sonhar com uma sociedade melhor rejeitando os adubos químicos e semeando nossas mentes com novas ideias.

domingo, 28 de novembro de 2010

Inclusão Social: assistencialismo ou dívida histórica?

Uma regra universal das competições é que todos os participantes comecem a disputa sem nenhuma vantagem. Um time não entra em campo com o placar negativo. Não se começa brincar de banco imobiliário com alguém algumas casas à frente. E ninguém começa um jogo de xadrez com o Rei em xeque.
Mas quando deixamos as decisões políticas e econômicas nas mãos dos políticos e dos economistas, é exatamente isso que estamos fazendo: começamos perdendo.
Quando a escravidão foi abolida no Brasil, teve início um jogo em que alguns começaram com terras, dinheiro, meios de produção e educação, enquanto os negros começaram do zero, apenas com os dados para lançar.
Os dados desse jogo são uma péssima educação, porque assim como os dados, a educação é vista como uma forma de avançar no jogo, o que chamamos de "subir na vida".
Nossa economia é um tabuleiro cheio de vícios, pois nosso jogo econômico começou de forma desequilibrada, desleal e injusta. Temos então tímidas tentativas de promover um equilíbrio, com políticas de inclusão, cotas em universidade, uma reforma agrária inexpressiva e bolsa família.
Mas parte da nossa elite desconhece esse processo histórico, e luta contra essas políticas como se fosse uma forma de premiar a incompetência dos pobres. O capitalismo fracassa no mundo inteiro, mas é blindado de críticas porque faz as pessoas acreditarem que aquele que começou do zero tem as mesmas chances que  tem aquele que começou dez casas à frente.
Os aparelhos ideológicos legitimam o modelo usando psicologia de massa para desafiar o pobre a ganhar o jogo de forma heróica. Exaltam um ou outro exemplo de pobre que conseguiu "subir na vida" para afirmar que o sistema é harmônico e que estamos em uma terra de oportunidades onde todo esforço é recompensado.
Percebemos, assim, que essa falsa idéia de mobilidade social está tão bem impregnada no imaginário coletivo que o pobre se alimenta com o bolsa família e entra na universidade pelas cotas sentindo vergonha como se estivesse trapaceando no jogo em que começou perdendo. A verdade é que se a dívida com essas pessoas fosse calculada com as taxas atuais, as políticas de inclusão não seriam suficientes nem para amortizar os juros.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Se Deus não existe, tudo é permitido?

A política de criminalização parece apenas revelar o fracasso da educação como processo civilizatório. Demonstração disso é que a punição e a reclusão são apresentadas com louvor como a solução para a harmonia social.
A famosa pergunta de Dostoiévski, "Se Deus não existe, tudo é permitido?", parece nortear a análise de Freud no "Mal estar na civilização". No texto, Freud questiona a punição como forma de garantir a convivência, uma vez que só tem validade enquanto se faz presente.
Em outras palavras, a preocupação de Freud recai sobre que tipo de comportamento esperar do homem quando este não estiver sob a vigilância do Estado, ou quando sua consciência estiver livre do aprisionamento causado pelo temor de Deus. A punição só garante a convivência enquanto se faz presente. Assim, basta a certeza da impunidade para que o homem esteja inteiramente livre para praticar tudo aquilo que desejar.
Freud propõe, entretanto, que as pulsões sejam controladas através de um processo de racionalização. Quando o homem internaliza a idéia de que o homicídio não é algo desejável, ainda que o Estado desapareça, ainda que não exista lei nem divindade a quem deva prestar contas, ele não cometeria, pois seria uma prática reprovada no âmbito da sua consciência.
Enquanto a educação for vista apenas como meio de "subir na vida", sem compromisso com um projeto civilizatório, continuaremos buscando a coesão social pela violência das leis. E lamentavelmente nosso horizonte não é dos melhores. Vemos acalorado clamor pela criminalização da homofobia, criminalização da xenofobia, redução de maioridade penal e pena de morte. Mas qualquer tentativa de resolver esses problemas através da educação soa como utopia e ingênuo idealismo. Lamentavemente, no nosso cenário social, a punição aparece como protagonista enquanto a educação não passa de figurante. O orgulho de leis duras esconde, na verdade, uma confissão vergonhosa de uma educação fracassada.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Proibição do uso de véu na França se chama "Princípios republicanos". Se fosse na Venezuela, que nome teria?

No último dia 14 de setembro, a BBC Brasil noticiou que o Senado francês proibiu o uso de véus islâmicos em público.
Por 246 votos a favor e um contra, as mulheres que usarem véu em público serão obrigadas a retirá-lo e conduzidas a delegacia para pagamento de multa.
Curioso é que a lei foi aprovada sob pretexto de 'princípios republicanos'. Segundo a ministra da Justiça, "a França garante o respeito a todas as religiões".
O que intriga nessa história é que não fica claro qual a ameaça do véu à ordem social. Religião é essencialmente simbólica. Não há que se falar em respeito às religiões, quando os seus símbolos são proibidos. Isso é retrato de intolerância e de repressão.
Quais são esses princípios republicanos ? Estado laico é aquele que não impõe nem adota uma religião oficial. Proibir as pessoas de a exercerem como entendem é adotar o secularismo como uma religião das mais fundamentalistas que se tem notícia.
Se o fato tivesse ocorrido na Venezuela, seria noticiado como uma brutal violência comunista, mas como foi na França, vamos chamar de "Princípios Republicanos". É assim que funciona?
Seria muito mais digno e honesto afirmar que "a França é, sim, intolerante à diversidade e à pluralidade, por isso aprovamos essa lei". Se tivessem dito isso, entenderíamos, com pesar, mas não haveria razão para essa postagem.

sábado, 13 de novembro de 2010

O verdadeiro compromisso dos empresários com a educação

Ficou para trás o tempo em que era de interesse de uma classe dominante manter uma massa ignorante. Assim como "ética", a palavra "educação" está na moda, e propostas como escola técnica e universidade rendem votos.
A grande questão é saber a serviço de quem a educação está. O Brasil mudou nos últimos anos, e as necessidades de mercado também mudaram. Alguns empregos exigem uma certa qualificação e pagam salários razoáveis. Como não há muitas pessoas preparadas para ocupar esses empregos, o empresário não pode se dar ao luxo de dizer ao empregado "se não quiser, outro quer".
Nesse ponto, entra a educação. Quanto mais gente preparada, mais gente na fila, mais gente concorrendo ao mesmo posto, reduzindo drasticamente os salários. Esse é o único compromisso dos grandes empresários com a educação.
A educação não deve ser promovida com o fim de gerar "recursos humanos", e sim dentro de um propósito civilizatório. Formar técnicos só vai fazer uns poucos "subirem na vida", dando a ligeira impressão de que o Brasil é um país de oportunidades. Uma educação de joelhos para o mercado nunca vai contribuir na redução das desigualdades.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Brasileiro é um povo pacífico ou anestesiado?

Outro dia, já bastante tarde, na última viagem de uma lotação, o motorista resolveu, sem consultar os passageiros, pegar uma rota diferente para encurtar um caminho. Uma passageira se sentiu prejudicada com o atalho e reclamou, porque teria de voltar algumas quadras a pé por causa da decisão do motorista. O motorista não cedeu e ela teve que descer ali mesmo. Fato curioso é que após a descida, os próprios passageiros a ridicularizavam a senhora, dizendo entre eles que se ela quisesse ficar em casa, que pegasse um táxi. Em várias outras ocasiões, os próprios passageiros reagem da mesma maneira contra alguém que se recusa a embarcar em uma van lotada. Parece ser um capricho excessivo para o pobre. O fato é que o povão foi doutrinado a ver até a dignidade como extravagância, como se fosse um luxo desmerecido.
Os meios de comunicação reproduzem um estado de sono que não é real. Sob o pretexto de que brasileiro é pacífico, ensinam-nos que nenhum esforço vale a pena, porque nunca passarão de “meia dúzia”. Com isso, instalam um clima de conformismo que não é próprio do brasileiro. Demonstração disso é que os meios de comunicação sempre subestimam as manifestações populares. Sempre divulgam números inferiores dos participantes e negam a repercussão, como se ninguém estivesse sendo incomodado. Isso ocorre em movimentos menores, como greves, manifestações contra aumento de passagem, aprovação de alguma lei, etc.
Quando não é possível disfarçar o incômodo, criminalizam os movimentos, tratando como caso de polícia, como no caso dos movimentos como MST, ou quando estudantes acampam contra a corrupção. Enfim, no Brasil, os poderosos grupos de comunicação trabalham a todo vapor para anestesiar a população e jogar a opinião pública contra qualquer tipo de reação. Tudo para que a sociedade não se organize. Tudo para desencorajar as pessoas de exigirem o que é direito. Para quem acha que esse texto é uma “teoria da conspiração”, é só começar observar.