segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Proibição do uso de véu na França se chama "Princípios republicanos". Se fosse na Venezuela, que nome teria?

No último dia 14 de setembro, a BBC Brasil noticiou que o Senado francês proibiu o uso de véus islâmicos em público.
Por 246 votos a favor e um contra, as mulheres que usarem véu em público serão obrigadas a retirá-lo e conduzidas a delegacia para pagamento de multa.
Curioso é que a lei foi aprovada sob pretexto de 'princípios republicanos'. Segundo a ministra da Justiça, "a França garante o respeito a todas as religiões".
O que intriga nessa história é que não fica claro qual a ameaça do véu à ordem social. Religião é essencialmente simbólica. Não há que se falar em respeito às religiões, quando os seus símbolos são proibidos. Isso é retrato de intolerância e de repressão.
Quais são esses princípios republicanos ? Estado laico é aquele que não impõe nem adota uma religião oficial. Proibir as pessoas de a exercerem como entendem é adotar o secularismo como uma religião das mais fundamentalistas que se tem notícia.
Se o fato tivesse ocorrido na Venezuela, seria noticiado como uma brutal violência comunista, mas como foi na França, vamos chamar de "Princípios Republicanos". É assim que funciona?
Seria muito mais digno e honesto afirmar que "a França é, sim, intolerante à diversidade e à pluralidade, por isso aprovamos essa lei". Se tivessem dito isso, entenderíamos, com pesar, mas não haveria razão para essa postagem.

6 comentários:

Thiago César disse...

Aos educadores, sugiro a seguinte atividade com os alunos:
"Escreva uma pequena reportagem de como essa notícia seria publicada, caso tivesse acontecido na Venezuela."

Pé De Pano_ disse...

Concordo. Mas a notícia seria anunciada de tal forma não só na França: se algo semelhante ocorresse nos EUA a mídia noticiaria como "questão de segurança nacional" e a população (que diversas guerras fez, mas nenhuma em seu território), assustada, acataria sem oposição.
Mas; infelizmente, temos que colocar o contexto em que essa lei se insere (não que eu concorde, mas parece ser um argumento - ignóbil, mas adotado), qual seja a de coibir ameaças terroristas.
Da mesma forma que os estadunidenses, a Europa, há muito, vem adotando medidas similares e coibitivas/preventivas contra ações terroristas, e, como se sabe (ou ao menos como é noticiado), a maioria dos ataques são realizados por grupos fundamentalistas religiosos, mormente muçulmanos.
Desta feita, a justificativa da lei seria a de coibir o véu como um disfarce a ser usado. Até porque o que se tem noticiado é uma crescente adesão de mulheres ao terrorismo.

Thiago César disse...

Verdade! Exatamente esse o ponto! Não seria muito mais "republicano" aprovar a lei e justificá-la do ponto de vista de segurança nacional? Mas realmente não fica explícita a conexão. Não foi mencionado no texto, mas existe proibição também de usar crucifixos, quipás (solidéu usado pelos judeus) e outros símbolos religiosos. O que me faz acreditar que embora exista de fato uma intersecção entre religião e terrorismo, a lei parece ter motivação estritamente na intolerância religiosa.
Todo país tem soberania para fazer suas leis como bem entende. Mas é repulsivo criminalizar o exercício da religião sob o manto de um "Estado Laico" e chamar isso de princípio republicano. Queria ver se fosse na Venezuela que nome dariam ao mesmo fato.

A matéria completa se encontra em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/09/100914_france_burca_mdb.shtml

Pé De Pano_ disse...

Eu não tive tempo de procurar saber em quais condições a lei foi aprovada e muito menos o seu teor.
Mas, tendo em vista o que você descreveu, a proibição se estende a todas as religiões e, dessa forma, penso que (ainda que não concorde), a lei veio exatamente externar a obrigatoriedade de TOLERÂNCIA religiosa da seguinte perspectiva: "ninguém vai te proibir de escolher sua religião, mas, para evitar conflitos nas ruas e em outros lugares, exerça-a apenas nos locais apropriados".
Dessa forma o Estado se mantém laico, sem adentrar no mérito da fé e, ao estender a todas as religiões o proibitivo de símbolos e afins nas ruas, mostra seu laicismo máximo.
Não estou dizendo que sou a favor, mas, de certa forma, não privilegiar nenhuma religião é realmente algo muito positivo, pois evita questionamentos de favorecimento ou preferências a determinadas religiões.
Sinceramente, eu até acho que poderia preferir assim do que, num país como o nosso (que também é laico), em que, em alguns tribunais e órgãos públicos, possuem crucifixos e outros adornos religiosos afixados nas paredes e afins.
Digo isso porque uma religião, para assim ser considerada, tem um pilar fundamental que, creio eu, tem que ser, de certa forma, combatido. Esse pilar é o da "conversão".
Eu não vou dizer que 100% delas sejam assim porque não conheço todas as religiões; mas, as maiores e a maioria delas possui como dogma esse pilar: o de converter os não-fiéis. E isso meu caro, invariavelmente (e infelizmente), gera intolerância religiosa. O que, a meu ver, tenta ser combatido (ainda que duramente) pela legislação francesa.
Os muçulmanos possuem a Jihad. Os católicos o inferno, com seus diversos pecados. Os evangélicos dizem que quem não o é está "amarrado". Os judeus se consideram o único povo escolhido. E por aí vai.
Infelizmente esse é o preço que se paga na sociedade: "se a maioria não sabe brincar, então que ninguém brinque"

*Excluí o post anterior por achar que havia me expressado mal com relação a uma frase em específico

Thiago César disse...

Penso que a questão é meramente política e visa agradar setores conservadores, assim como a expulsão dos ciganos e crescente retaliação a imigrantes. Lamentável essa tendência que ocorre na França.
Um estudo panorâmico sobre o assunto mostra que a transição para um Estado laico foi um marco extraordinário na civilização e que hoje é banalizado com leis preconceituosas. Houve tempo na história que a religião tinha poder de decidir sobre a vida ou morte das pessoas. Vimos, na história, os cristãos passarem de perseguidos a perseguidores. Tivemos a idade das trevas, as cruzadas, a companhia de Jesus. A ligação chegava a um ponto em que não se diferenciava o poder do Estado e o poder da Igreja.
Na própria França temos guerras religiosas, com caça às bruxas, a exemplo de Joana D'Arc, além do massacre de milhares de huguenotes. Na Espanha, ainda hoje, católicos e protestantes não dividem o mesmo espaço. E no Oriente, o mesmo acontece entre judeus e árabes.
A transição para um Estado laico representou, portanto, inestimável avanço para a civilização.
Agora me vem um parlamento dizer que usar um crucifixo ou um véu representa uma ameaça ao Estado laico? Nem apelando para síndrome do pânico.
À luz dos fatos, proibir o uso de um símbolo religioso é debochar da história.
Além disso, a lei expõe a ridículo todo sangue que já foi derramado por quem verdadeiramente lutou por um Estado Laico.
A lei só vem corroborar com um movimento muito perigoso de segregação e de divisão que assistimos ocorrer naquele país. Há uma violência cultural, um atentado à diversidade, e à pluralidade. Pura intolerância. Hoje, infelizmente, ao invés de colher os frutos dos verdadeiros mártires e se orgulhar de ser um Estado tolerante, a lei, enquanto pensa estar reinventando a roda, vem, na verdade, causar irreparável prejuízo cultural à humanidade.

Thiago César disse...

Ainda em tempo: E se fosse na Venezuela?