terça-feira, 16 de novembro de 2010

Se Deus não existe, tudo é permitido?

A política de criminalização parece apenas revelar o fracasso da educação como processo civilizatório. Demonstração disso é que a punição e a reclusão são apresentadas com louvor como a solução para a harmonia social.
A famosa pergunta de Dostoiévski, "Se Deus não existe, tudo é permitido?", parece nortear a análise de Freud no "Mal estar na civilização". No texto, Freud questiona a punição como forma de garantir a convivência, uma vez que só tem validade enquanto se faz presente.
Em outras palavras, a preocupação de Freud recai sobre que tipo de comportamento esperar do homem quando este não estiver sob a vigilância do Estado, ou quando sua consciência estiver livre do aprisionamento causado pelo temor de Deus. A punição só garante a convivência enquanto se faz presente. Assim, basta a certeza da impunidade para que o homem esteja inteiramente livre para praticar tudo aquilo que desejar.
Freud propõe, entretanto, que as pulsões sejam controladas através de um processo de racionalização. Quando o homem internaliza a idéia de que o homicídio não é algo desejável, ainda que o Estado desapareça, ainda que não exista lei nem divindade a quem deva prestar contas, ele não cometeria, pois seria uma prática reprovada no âmbito da sua consciência.
Enquanto a educação for vista apenas como meio de "subir na vida", sem compromisso com um projeto civilizatório, continuaremos buscando a coesão social pela violência das leis. E lamentavelmente nosso horizonte não é dos melhores. Vemos acalorado clamor pela criminalização da homofobia, criminalização da xenofobia, redução de maioridade penal e pena de morte. Mas qualquer tentativa de resolver esses problemas através da educação soa como utopia e ingênuo idealismo. Lamentavemente, no nosso cenário social, a punição aparece como protagonista enquanto a educação não passa de figurante. O orgulho de leis duras esconde, na verdade, uma confissão vergonhosa de uma educação fracassada.

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