Embora seja simpática a idéia de
uma mobilização apartidária, onde todos se abraçam em torno de uma sociedade
mais justa, isso me parece algo perigoso. Não apenas nas manifestações atuais,
onde se exaltou a idéia de apartidarismo, mas vemos reflexo dessa noção também
na ‘rede’ proposta por Marina Silva, um partido que evita o nome de partido,
para parecer uma proposta mais simpática e, consequentemente, faturar em cima
dessa rejeição.
Mas por que defender o
partidarismo a essa altura? Algum deles seria digno de defesa? Não. Não escrevo
isso por achar que algum partido seja digno de ser defendido, mas porque o
partido político parece uma espécie de fiador eleitoral.
Explico.
Ao ler a biografia de um
candidato, posso até chegar a conclusões bastante convincentes quanto à sua
moralidade, sua integridade ou sua honestidade. Com a internet então, posso
pesquisar a vida inteira de um sujeito. Mas isso só me diz coisas do seu
passado. Uma pessoa bem intencionada pode até ser um bom propositor de leis.
Mas quando escolho um representante, não me limito a pensar se ele vai propor
leis proibindo o fumo em local público, ou se vai fazer um projeto de lei
obrigando que seja afixado aviso na porta de elevador. O meu representante
votará matérias importantes, como a reforma política, reforma judiciária, a redução da maioridade
penal, a PEC 37 etc. E a honestidade dele não me diz nada sobre
isso. Não se trata apenas de ser honesto ou bem intencionado, mas de orientação
ideológica. Sem partido, meu parlamentar é imprevisível. Sua biografia me diz
sobre o seu passado, mas quando voto, estou votando no futuro, de modo que
preciso saber o que esperar daquele representante. Preciso saber como ele irá
se posicionar não apenas com relação às suas promessas ou quanto às antigas
questões que já tramitam, mas, sobretudo, como ele irá se comportar diante das
questões que ainda não surgiram, das quais não é possível sequer imaginar.
Assim, sem uma cor que identifique o meu candidato, sem um logotipo, sem um rótulo,
não sei o que esperar dele, não tenho um parâmetro para cobrar dele, não posso
sequer medir se ele está sendo fiel ou não ao mandato que lhe confiei, uma vez
que ele pode, com toda a honestidade e boa intenção, votar em algo totalmente
contrário ao que espero. O fato de amar os animais e a causa verde não me
permite inferir como o candidato vai enfrentar as demais questões. É por isso
que não acredito na política da pura honestidade sem partido.
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