terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sobre as nossas prioridades

Não existe, talvez, idéia mais perniciosa do que o discurso de que o pobre é "puxado" pelo progresso do rico. Esse é o discurso responsável pela corrupção das nossas prioridades.
Poderíamos, por exemplo, imaginar que o dinheiro que será despejado nos modernos estádios para sediar a copa do mundo poderia ser empregado na saúde, educação ou mesmo nos esportes. Mas isso não é importante. É discurso de ignorante, que não entende nada de economia. Construir escolas, hospitais e creches não gera emprego e seus benefícios não são permanentes.
Prioridade mesmo é construir estádios e modernizar os já existentes: isso sim atrai turistas, dinamiza a economia, gera empregos para os pobres e deixam uma infraestrutura para toda a posteridade. Isso sim é projeto de futuro. Para nós pode parecer um absurdo porque nos falta visão.
Nossas prioridades nos indicam que ter modernos estádios é mais relevante para nossa "imagem no exterior" do que oferecer creche, vacina, merenda e escola às nossas crianças.
Ao final de 2014, teremos estádios de futebol trazidos do futuro e continuaremos com saneamento básico pré-colonial. No fundo, estamos mais preocupados em nos misturarmos entre os países que consideramos desenvolvidos do que desenvolver, de fato, uma inclusão social interna.
Seguindo essa linha de raciocínio, poderíamos então dizer que melhorando a alimentação dos ricos, esses produzirão, com seus excrementos, estercos de alta qualidade para os lavradores pobres. Celebremos nossas prioridades.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Democracia entre a tragédia e a comédia

O governo Lula chega ao fim deixando uma boa impressão. Nunca na história desse país o pobre consumiu tanto. A continuidade de uma política econômica conservadora e um pouco de sensibilidade social renderam a Lula uma popularidade histórica.
Projetos como Bolsa Família, além de reduzir a fome, funcionam como pequenas alavancas locais. Vimos que esse pouco dinheiro funciona como um dínamo nas economias provincianas. A mercadoria circula onde não circulava e empregos são gerados onde não se gerava.
Foi um governo marcado por avanços importantes, mas estamos longe de poder falar em uma “Era Lula”. Assim como o governo foi moderado nas transformações, precisamos ser moderados nos elogios. É verdade que os pobres têm acesso aos produtos, mas continuam excluídos dos meios de produção. Os camponeses estão mais próximos dos alimentos, mas continuam distantes da terra. Os modernos televisores de plasma se popularizaram, mas a comunicação continua concentrada nas mãos de poucas famílias. Enfim, não houve transformação.
Lula deixa um legado positivo para a história, mas nada extraordinário. Foi um presidente populista, mas muito longe de ser um Estadista. Não enfrentou interesses econômicos, não tirou a reforma agrária do papel e não houve nenhum esforço pela democratização da comunicação. Tivemos uma ligeira melhora, mas a estrutura da nossa sociedade continua a mesma.  Se com a dobradinha PSDB/DEM o povo ficava fora da peça, Lula nos colocou na platéia com um saco de pipoca nas mãos. Mas para sermos uma democracia de verdade precisamos deixar de ser meros espectadores e, de fato, entrar em cena.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Monocultura ideológica na Terra de Santa Cruz

Um dos princípios básicos da agricultura é que o cultivo de uma única planta é prejudicial ao solo. Mesmo assim, os grandes latifundiários massacram nossa terra com algodão, soja e eucalipto. Mas não fazem isso por ignorância, e sim porque o capital está acima da noção de humanidade.
O nosso povo permite que os interesses econômicos se sobreponham aos interesses sociais porque é vítima de uma monocultura ideológica. A mente é como uma boa terra: se cultivarmos sempre as mesmas idéias, vai aos poucos se tornando estéril. E é isso que acontece quando reproduzimos uma cultura de discurso único.
A concentração de renda e a exclusão dos pobres aos direitos sociais só se tornam viáveis porque existe uma dominação cultural que tenta nos convencer de que as coisas são “assim mesmo”. Por causa da monocultura ideológica, as pessoas simplesmente não conseguem pensar uma sociedade diferente, mesmo que não exista nenhum impedimento lógico ou epistemológico em se pensar uma sociedade justa. Vemos nossas doenças sociais como extensões de fenômenos naturais inevitáveis. Acostumamos a conviver com a fome assim como convivemos com a força da gravidade. Aprendemos que a competitividade imposta pelo capitalismo é algo tão inevitável quanto a seleção natural explicada por Darwin. O desmoronamento de um barraco erguido sobre palafita não causa mais espanto do que uma cheia ou uma maré alta.
Assim como a monocultura agrícola torna o solo estéril, a monocultura ideológica acaba com a fertilidade da nossa mente para qualquer mudança que contrarie interesses econômicos, desarticula as pessoas, e nos torna voluntários servos de um discurso único. Mas assim também como uma terra empobrecida pode ser recuperada pela biodiversidade, podemos recuperar nossa capacidade de reagir e de sonhar com uma sociedade melhor rejeitando os adubos químicos e semeando nossas mentes com novas ideias.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UPP: Unidade do Plim-Plim

O governo do Rio de Janeiro anunciou a construção de mais uma Unidade de Polícia Pacificadora, UPP. A 13ª unidade será construída na Vila Isabel, em frente ao Centro Integrado de Educação Pública, CIEP.
Os Brizolões, como ficaram conhecidos os CIEPs, foram um projeto educacional idealizado por Darcy Ribeiro e implantados pelo então governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola.
Os prédios concebidos por Oscar Niemeyer possuiam três edifícios: o primeiro era uma estrutura de três pavimentos que abrigava salas de aula, centro médico, cozinha, refeitório e áreas de recreação. Outro edifício consistia em um ginásio esportivo e no terceiro funcionava uma biblioteca e os dormitórios.
O foco do projeto era tirar crianças das ruas. Cada uma das 500 unidades, construídas em lugares pobres, oferecia educação integral, de 8 às 17 horas, em que o currículo regular era enriquecido com atividades culturais, esportivas e estudos dirigidos. Além das três refeições diárias, as crianças mais carentes contavam com banhos, dormitórios e até "pais sociais". Difícil acreditar, mas isso existiu no Brasil.
Não era simplesmente uma escola. Tratava-se do projeto educacional mais ambicioso que já saiu do papel: 500 unidades foram construídas nas periferias.
A reação de Roberto Marinho foi imediata: O "jornalista" não poupou esforços para convencer a opinião pública de que os projetos teriam sido construídos com propósitos eleitorais, uma vez que eram instalados em áreas pobres. Segundo o comandante do plim-plim, Brizola era um senil, e já não tinha tanta lucidez . Era visionário de um projeto caro para o Estado. Muito dinheiro para se desperdiçar com educação. A Veja não ficou atrás, e a capa de uma edição mostrava Brizola como um dinossauro da política.
Assim, não demorou muito para que os governantes, numa  notória demonstração de genialidade, percebessem que era mais econômico acabar com o ensino integral e oferecer ensino em turnos, multiplicando o número de alunos.
A Vila Isabel volta a receber um investimento do Estado. Agora com o louvor do Plim-Plim, porque  não se trata de ressuscitar a senil idéia de Brizola, e sim de instalar o que há de mais moderno no conceito de segurança pública: uma unidade policial.
Educação: a gente não vê por aqui.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O milagre econômico e a falência das prioridades.

O nosso cenário político é desanimador. Falamos de crescimento em “ritmo chinês”, “PIB”, “desvalorização cambial” e outros termos que repetimos como se fôssemos papagaios de economistas.
Por causa do terrorismo econômico, somos um povo apreensivo, disposto a pagar o preço que for por uma boa reputação no mercado financeiro internacional. Abandonamos nossa saúde para pagar juros de uma dívida inexplicável, pelo medo de que uma auditoria provoque uma imagem negativa para o país. Somos cúmplices de uma massa de analfabetos e desempregados em nome de um projeto que torna nossa economia o paraíso da especulação. Ao invés de atrairmos investidores com indústrias fortes e de alta tecnologia, preferimos atrair agiotas internacionais com nossos altos juros.
Graças ao pedantismo dos discursos econômicos, passamos a ver a tarefa de cuidar das pessoas como uma atividade de extrema complexidade e de alto risco. O governo é cauteloso para investir em saúde e em educação, mas pródigo na hora de depositar nosso dinheiro em reservas internacionais. Tiram o sossego de milhões de trabalhadores para acalmar o mercado e dar tranqüilidade aos especuladores.
Desse modo, o fetichismo econômico faz com que o crescimento do PIB seja mais importante do que uma melhoria de IDH. Mortalidade infantil, ausência de saneamento básico, epidemias e analfabetismo não entram na equação que nos coloca como potência econômica, assim como a fome e a desnutrição não são contabilizadas quando o Brasil é apresentado como potência agrícola.
Essas são nossas prioridades e, com esse cenário, certamente nosso horizonte não é um dos melhores.

domingo, 28 de novembro de 2010

Inclusão Social: assistencialismo ou dívida histórica?

Uma regra universal das competições é que todos os participantes comecem a disputa sem nenhuma vantagem. Um time não entra em campo com o placar negativo. Não se começa brincar de banco imobiliário com alguém algumas casas à frente. E ninguém começa um jogo de xadrez com o Rei em xeque.
Mas quando deixamos as decisões políticas e econômicas nas mãos dos políticos e dos economistas, é exatamente isso que estamos fazendo: começamos perdendo.
Quando a escravidão foi abolida no Brasil, teve início um jogo em que alguns começaram com terras, dinheiro, meios de produção e educação, enquanto os negros começaram do zero, apenas com os dados para lançar.
Os dados desse jogo são uma péssima educação, porque assim como os dados, a educação é vista como uma forma de avançar no jogo, o que chamamos de "subir na vida".
Nossa economia é um tabuleiro cheio de vícios, pois nosso jogo econômico começou de forma desequilibrada, desleal e injusta. Temos então tímidas tentativas de promover um equilíbrio, com políticas de inclusão, cotas em universidade, uma reforma agrária inexpressiva e bolsa família.
Mas parte da nossa elite desconhece esse processo histórico, e luta contra essas políticas como se fosse uma forma de premiar a incompetência dos pobres. O capitalismo fracassa no mundo inteiro, mas é blindado de críticas porque faz as pessoas acreditarem que aquele que começou do zero tem as mesmas chances que  tem aquele que começou dez casas à frente.
Os aparelhos ideológicos legitimam o modelo usando psicologia de massa para desafiar o pobre a ganhar o jogo de forma heróica. Exaltam um ou outro exemplo de pobre que conseguiu "subir na vida" para afirmar que o sistema é harmônico e que estamos em uma terra de oportunidades onde todo esforço é recompensado.
Percebemos, assim, que essa falsa idéia de mobilidade social está tão bem impregnada no imaginário coletivo que o pobre se alimenta com o bolsa família e entra na universidade pelas cotas sentindo vergonha como se estivesse trapaceando no jogo em que começou perdendo. A verdade é que se a dívida com essas pessoas fosse calculada com as taxas atuais, as políticas de inclusão não seriam suficientes nem para amortizar os juros.

sábado, 27 de novembro de 2010

A entrevista de Lula aos blogueiros sujos

Uma entrevista dada pelo presidente Lula no último dia 24 vem causando controvérsias. Parafraseando o presidente, nunca na história desse país uma entrevista causou tanta polêmica.
O presidente recebeu no Palácio do Planalto um grupo de blogueiros progressistas. Aqueles mesmos a quem José Serra chamou de "blogueiros sujos". Aliás, parece mesmo que eles gostaram desse nome, pois passaram a usar com frequencia a expressão para se referirem uns aos outros carinhosamente.
Não haveria razão para tanto barulho pois, nos oito anos de governo, o presidente esteve à disposição da imprensa em pelo menos 960 ocasiões, conforme dados do próprio Ministro da Comunicação Social, Franklin Martins.
A grande imprensa vem fazendo um esforço para desqualificar e fazer o encontro entre Lula e os blogueiros cair no ridículo. O motivo para a hostilidade é que eles representam uma resistência às oligarquias da midia. Lutam pela democratização da informação e suas postagens fazem oposição ao que denominam Partido da Imprensa Golpista (PIG). Para eles, a imprensa nacional, sob a idéia de neutralidade, atua como um partido político, o PiG.
A reação da mídia foi imediata. A Folha de São Paulo exigiu uma satisfação do Planalto: queria saber como a entrevista teria sido agendada e quando foi autorizada. O Globo também reagiu imediatamente no sentido de debochar da entrevista, dizendo que o presidente havia recebido amigos e que aquilo não era jornalismo. De fato não era. Estava mais para uma conspiração, uma vez que o tema central da entrevista foi sobre a regulamentação da mídia, que os blogueiros "sujos" chamam de "democratização", mas os conglomerados da informação insistem em chamar de "censura". Esse é o motivo para tanta preocupação.
Poderíamos dizer que assim como nos EUA existe a Casa Branca e na Argentina, a Casa Rosada, se dependesse da velha mídia, o Planalto se chamaria Casa Grande. É indigesto para nossa imprensa que circule livremente por ali alguém que tenha nascido e se criado na senzala e ainda por cima receber visitas.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Violência no Rio ultrapassa os limites... da pobreza

O confronto entre policiais e traficantes no Rio de Janeiro deixa o país estarrecido e coloca, mais uma vez, a cidade nos jornais do mundo inteiro.
Enquanto os traficantes barbarizam a cidade, a polícia se mobiliza para retomar os territórios com força total, mostrando que, de fato, se trata de uma guerra.
A nossa reflexão começa novamente pelo tratamento que a mídia dá ao assunto. O Rio de Janeiro jamais terá sucesso no combate à violência enquanto a imprensa continuar chamando os ataques de “onda de violência”. Trata-se, novamente, de um modo elitista de compreender a tragédia como se fosse um evento isolado e passageiro, que se resolve com leis mais duras e repressão policial. A violência só preocupa quando atravessa as fronteiras da miséria e atinge a sociedade. Nunca é um problema quando fica restrita aos morros. O que acontece quando a violência atravessa a linha da pobreza? Dizemos que ela passou dos limites! Aqui não estamos falando de intensidade, mas exatamente de limites geográficos. Dentro da favela tudo pode acontecer, mas quando o pânico cruza a linha da pobreza e chega à sociedade, dizemos que os traficantes passaram do limite. Por isso chamamos os pobres de excluídos: porque onde moram não há lei, não há direito, nem cidadania e, portanto, não representam problema. São indigentes, que só entram em escola para votar, nunca para estudar. A realidade é que o narcotráfico possui mais política inclusiva que o Estado. Os problemas dos pobres só se tornam questões sociais quando atingem os ricos.
Agora, diante dessa barbárie, entre ensurdecedoras explosões eis que surge na população um clima de incerteza e insegurança, eixo norteador de todos os problemas do Rio, que se resume em uma única questão fundamental: como esconder o problema e fazer bonito na copa do mundo?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Justiça ao velho estilo "Panem et circenses"

É impressionante a capacidade que a sociedade tem de desfocar os olhares dos verdadeiros problemas para se apegar a representações. O apelo social parece reproduzir uma fiel encenação da caverna de Platão. Enquanto nos ocupamos discutindo sobre as sombras, estreitamos a nossa mente para a realidade que nos envolve.
A nossa idéia de justiça é um exemplo típico. Quando o casal Nardoni foi condenado, pessoas celebravam com fogos de artifícios e faixas anunciando que "a justiça foi feita". Sempre que um "caso" recebe intensa cobertura da mídia, o resultado é um banquete com as cabeças dos réus.
Mas acontece que a cabeça de um acusado numa bandeja não sacia a fome das crianças. Não leva justiça a elas, não as tira da prostituição nem evita que caiam no mundo do crime. Todos os dias a miséria promove uma carnificina, mas os rostos dessas crianças não viram cartazes nem estampas de camisetas.
Os crimes que os jornais transformam em "casos" dissipam nosso potencial de indignação, e transformam nossa sede de justiça em "caça às bruxas". Resultado disso é vermos nossos tribunais se tornarem modernos coliseus, fazendo da vingança um circo para as pessoas.
Mas no final a imprensa sensacionalista acaba satisfazendo a todos: a parte da população que sabe ler e dispõe de recursos compra os jornais procurando encontrar nas notícias uma impressão de apoteose da justiça; a outra parte, analfabeta e pobre, aguarda os jornais lidos serem descartados para que lhes sirva de lençol e cobertores nas calçadas.

sábado, 20 de novembro de 2010

Aquele que não é igual Luiz Carlos Prates, que atire a primeira bolinha de papel

Temos visto circular na internet um vídeo em que o comentarista Luiz Carlos Prestes, do grupo RBS, filiado à Rede Globo, afirma que os acidentes de trânsito acontecem porque (sic) "qualquer miserável tem um carro".
Felizmente, o vídeo teve uma repercussão negativa, o que indica que a nossa sociedade ainda consegue reagir a esse tipo de preconceito. Para muitas pessoas, o motivo da indignação foi a palavra "miserável". Neste texto queremos chamar atenção para a palavra "qualquer". A infelicidade do comentário, ao nosso ver, está nela.
O pensamento de Luiz Prates é muito mais presente em nosso meio do que imaginamos. Não percebemos porque nem sempre o termo "qualquer" vem acompanhada da palavra "miserável". "Os hospitais particulares atendem melhor porque não atendem qualquer paciente". Percebe?
As escolas particulares são melhores porque lá não entra qualquer criança.  Os shoppings centers são agradáveis e seguros porque não são frequentados por qualquer consumidor. Se um mesmo cantor fizer dois shows em um mesmo lugar, reproduzindo o mesmo repertório, sendo um gratuito e outro cobrado, alguns preferirão assistir à apresentação paga, porque sabem que lá não estará presente "qualquer" público. Se um ambiente começar ficar frequentado demais, admitimos sem nenhuma reclamação pagar a entrada apenas para estarmos em um ambiente com público selecionado. Como vimos, o mesmo preconceito é aceitável quando, ao invés da palavra "miserável", usamos palavras como "paciente", "criança", "consumidor" ou "público".
Aliás, eu diria que no vocabulário do preconceito a expressão "público selecionado" é a irmã branca de olhos azuis da expressão "qualquer miserável". Ela passeia em shoppings, é atendida nos melhores hospitais, estuda em boas escolas, frequenta locais requintados e se assenta à nossa mesa sem nos causar náusea. Curioso, não?