terça-feira, 30 de novembro de 2010

O milagre econômico e a falência das prioridades.

O nosso cenário político é desanimador. Falamos de crescimento em “ritmo chinês”, “PIB”, “desvalorização cambial” e outros termos que repetimos como se fôssemos papagaios de economistas.
Por causa do terrorismo econômico, somos um povo apreensivo, disposto a pagar o preço que for por uma boa reputação no mercado financeiro internacional. Abandonamos nossa saúde para pagar juros de uma dívida inexplicável, pelo medo de que uma auditoria provoque uma imagem negativa para o país. Somos cúmplices de uma massa de analfabetos e desempregados em nome de um projeto que torna nossa economia o paraíso da especulação. Ao invés de atrairmos investidores com indústrias fortes e de alta tecnologia, preferimos atrair agiotas internacionais com nossos altos juros.
Graças ao pedantismo dos discursos econômicos, passamos a ver a tarefa de cuidar das pessoas como uma atividade de extrema complexidade e de alto risco. O governo é cauteloso para investir em saúde e em educação, mas pródigo na hora de depositar nosso dinheiro em reservas internacionais. Tiram o sossego de milhões de trabalhadores para acalmar o mercado e dar tranqüilidade aos especuladores.
Desse modo, o fetichismo econômico faz com que o crescimento do PIB seja mais importante do que uma melhoria de IDH. Mortalidade infantil, ausência de saneamento básico, epidemias e analfabetismo não entram na equação que nos coloca como potência econômica, assim como a fome e a desnutrição não são contabilizadas quando o Brasil é apresentado como potência agrícola.
Essas são nossas prioridades e, com esse cenário, certamente nosso horizonte não é um dos melhores.

domingo, 28 de novembro de 2010

Inclusão Social: assistencialismo ou dívida histórica?

Uma regra universal das competições é que todos os participantes comecem a disputa sem nenhuma vantagem. Um time não entra em campo com o placar negativo. Não se começa brincar de banco imobiliário com alguém algumas casas à frente. E ninguém começa um jogo de xadrez com o Rei em xeque.
Mas quando deixamos as decisões políticas e econômicas nas mãos dos políticos e dos economistas, é exatamente isso que estamos fazendo: começamos perdendo.
Quando a escravidão foi abolida no Brasil, teve início um jogo em que alguns começaram com terras, dinheiro, meios de produção e educação, enquanto os negros começaram do zero, apenas com os dados para lançar.
Os dados desse jogo são uma péssima educação, porque assim como os dados, a educação é vista como uma forma de avançar no jogo, o que chamamos de "subir na vida".
Nossa economia é um tabuleiro cheio de vícios, pois nosso jogo econômico começou de forma desequilibrada, desleal e injusta. Temos então tímidas tentativas de promover um equilíbrio, com políticas de inclusão, cotas em universidade, uma reforma agrária inexpressiva e bolsa família.
Mas parte da nossa elite desconhece esse processo histórico, e luta contra essas políticas como se fosse uma forma de premiar a incompetência dos pobres. O capitalismo fracassa no mundo inteiro, mas é blindado de críticas porque faz as pessoas acreditarem que aquele que começou do zero tem as mesmas chances que  tem aquele que começou dez casas à frente.
Os aparelhos ideológicos legitimam o modelo usando psicologia de massa para desafiar o pobre a ganhar o jogo de forma heróica. Exaltam um ou outro exemplo de pobre que conseguiu "subir na vida" para afirmar que o sistema é harmônico e que estamos em uma terra de oportunidades onde todo esforço é recompensado.
Percebemos, assim, que essa falsa idéia de mobilidade social está tão bem impregnada no imaginário coletivo que o pobre se alimenta com o bolsa família e entra na universidade pelas cotas sentindo vergonha como se estivesse trapaceando no jogo em que começou perdendo. A verdade é que se a dívida com essas pessoas fosse calculada com as taxas atuais, as políticas de inclusão não seriam suficientes nem para amortizar os juros.

sábado, 27 de novembro de 2010

A entrevista de Lula aos blogueiros sujos

Uma entrevista dada pelo presidente Lula no último dia 24 vem causando controvérsias. Parafraseando o presidente, nunca na história desse país uma entrevista causou tanta polêmica.
O presidente recebeu no Palácio do Planalto um grupo de blogueiros progressistas. Aqueles mesmos a quem José Serra chamou de "blogueiros sujos". Aliás, parece mesmo que eles gostaram desse nome, pois passaram a usar com frequencia a expressão para se referirem uns aos outros carinhosamente.
Não haveria razão para tanto barulho pois, nos oito anos de governo, o presidente esteve à disposição da imprensa em pelo menos 960 ocasiões, conforme dados do próprio Ministro da Comunicação Social, Franklin Martins.
A grande imprensa vem fazendo um esforço para desqualificar e fazer o encontro entre Lula e os blogueiros cair no ridículo. O motivo para a hostilidade é que eles representam uma resistência às oligarquias da midia. Lutam pela democratização da informação e suas postagens fazem oposição ao que denominam Partido da Imprensa Golpista (PIG). Para eles, a imprensa nacional, sob a idéia de neutralidade, atua como um partido político, o PiG.
A reação da mídia foi imediata. A Folha de São Paulo exigiu uma satisfação do Planalto: queria saber como a entrevista teria sido agendada e quando foi autorizada. O Globo também reagiu imediatamente no sentido de debochar da entrevista, dizendo que o presidente havia recebido amigos e que aquilo não era jornalismo. De fato não era. Estava mais para uma conspiração, uma vez que o tema central da entrevista foi sobre a regulamentação da mídia, que os blogueiros "sujos" chamam de "democratização", mas os conglomerados da informação insistem em chamar de "censura". Esse é o motivo para tanta preocupação.
Poderíamos dizer que assim como nos EUA existe a Casa Branca e na Argentina, a Casa Rosada, se dependesse da velha mídia, o Planalto se chamaria Casa Grande. É indigesto para nossa imprensa que circule livremente por ali alguém que tenha nascido e se criado na senzala e ainda por cima receber visitas.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Violência no Rio ultrapassa os limites... da pobreza

O confronto entre policiais e traficantes no Rio de Janeiro deixa o país estarrecido e coloca, mais uma vez, a cidade nos jornais do mundo inteiro.
Enquanto os traficantes barbarizam a cidade, a polícia se mobiliza para retomar os territórios com força total, mostrando que, de fato, se trata de uma guerra.
A nossa reflexão começa novamente pelo tratamento que a mídia dá ao assunto. O Rio de Janeiro jamais terá sucesso no combate à violência enquanto a imprensa continuar chamando os ataques de “onda de violência”. Trata-se, novamente, de um modo elitista de compreender a tragédia como se fosse um evento isolado e passageiro, que se resolve com leis mais duras e repressão policial. A violência só preocupa quando atravessa as fronteiras da miséria e atinge a sociedade. Nunca é um problema quando fica restrita aos morros. O que acontece quando a violência atravessa a linha da pobreza? Dizemos que ela passou dos limites! Aqui não estamos falando de intensidade, mas exatamente de limites geográficos. Dentro da favela tudo pode acontecer, mas quando o pânico cruza a linha da pobreza e chega à sociedade, dizemos que os traficantes passaram do limite. Por isso chamamos os pobres de excluídos: porque onde moram não há lei, não há direito, nem cidadania e, portanto, não representam problema. São indigentes, que só entram em escola para votar, nunca para estudar. A realidade é que o narcotráfico possui mais política inclusiva que o Estado. Os problemas dos pobres só se tornam questões sociais quando atingem os ricos.
Agora, diante dessa barbárie, entre ensurdecedoras explosões eis que surge na população um clima de incerteza e insegurança, eixo norteador de todos os problemas do Rio, que se resume em uma única questão fundamental: como esconder o problema e fazer bonito na copa do mundo?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Justiça ao velho estilo "Panem et circenses"

É impressionante a capacidade que a sociedade tem de desfocar os olhares dos verdadeiros problemas para se apegar a representações. O apelo social parece reproduzir uma fiel encenação da caverna de Platão. Enquanto nos ocupamos discutindo sobre as sombras, estreitamos a nossa mente para a realidade que nos envolve.
A nossa idéia de justiça é um exemplo típico. Quando o casal Nardoni foi condenado, pessoas celebravam com fogos de artifícios e faixas anunciando que "a justiça foi feita". Sempre que um "caso" recebe intensa cobertura da mídia, o resultado é um banquete com as cabeças dos réus.
Mas acontece que a cabeça de um acusado numa bandeja não sacia a fome das crianças. Não leva justiça a elas, não as tira da prostituição nem evita que caiam no mundo do crime. Todos os dias a miséria promove uma carnificina, mas os rostos dessas crianças não viram cartazes nem estampas de camisetas.
Os crimes que os jornais transformam em "casos" dissipam nosso potencial de indignação, e transformam nossa sede de justiça em "caça às bruxas". Resultado disso é vermos nossos tribunais se tornarem modernos coliseus, fazendo da vingança um circo para as pessoas.
Mas no final a imprensa sensacionalista acaba satisfazendo a todos: a parte da população que sabe ler e dispõe de recursos compra os jornais procurando encontrar nas notícias uma impressão de apoteose da justiça; a outra parte, analfabeta e pobre, aguarda os jornais lidos serem descartados para que lhes sirva de lençol e cobertores nas calçadas.

sábado, 20 de novembro de 2010

Aquele que não é igual Luiz Carlos Prates, que atire a primeira bolinha de papel

Temos visto circular na internet um vídeo em que o comentarista Luiz Carlos Prestes, do grupo RBS, filiado à Rede Globo, afirma que os acidentes de trânsito acontecem porque (sic) "qualquer miserável tem um carro".
Felizmente, o vídeo teve uma repercussão negativa, o que indica que a nossa sociedade ainda consegue reagir a esse tipo de preconceito. Para muitas pessoas, o motivo da indignação foi a palavra "miserável". Neste texto queremos chamar atenção para a palavra "qualquer". A infelicidade do comentário, ao nosso ver, está nela.
O pensamento de Luiz Prates é muito mais presente em nosso meio do que imaginamos. Não percebemos porque nem sempre o termo "qualquer" vem acompanhada da palavra "miserável". "Os hospitais particulares atendem melhor porque não atendem qualquer paciente". Percebe?
As escolas particulares são melhores porque lá não entra qualquer criança.  Os shoppings centers são agradáveis e seguros porque não são frequentados por qualquer consumidor. Se um mesmo cantor fizer dois shows em um mesmo lugar, reproduzindo o mesmo repertório, sendo um gratuito e outro cobrado, alguns preferirão assistir à apresentação paga, porque sabem que lá não estará presente "qualquer" público. Se um ambiente começar ficar frequentado demais, admitimos sem nenhuma reclamação pagar a entrada apenas para estarmos em um ambiente com público selecionado. Como vimos, o mesmo preconceito é aceitável quando, ao invés da palavra "miserável", usamos palavras como "paciente", "criança", "consumidor" ou "público".
Aliás, eu diria que no vocabulário do preconceito a expressão "público selecionado" é a irmã branca de olhos azuis da expressão "qualquer miserável". Ela passeia em shoppings, é atendida nos melhores hospitais, estuda em boas escolas, frequenta locais requintados e se assenta à nossa mesa sem nos causar náusea. Curioso, não?

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Direito Natural e Reforma Agrária

Se fizermos uma rápida análise, verificamos que as reformas mais necessárias do país procuram resolver problemas causados por uma cultura de "direitos naturais". Tomemos como exemplo a polêmica reforma agrária.
A convicção de que existe uma espécie de direito natural ou originário, fez com que portugueses e espanhóis lavrassem um tratado para dividir possíveis territórios. Não lhes passava pela cabeça que as terras que estavam dividindo poderiam ser habitadas.
Deliberavam sobre o "Mundo Novo" como se fosse deles desde sempre, por decreto divino, e a "partilha" era mera questão burocrática. Ao atracar as caravelas, os nativos foram transformados em intrusos. Sem qualquer participação dos nativos, o Tratado surtia seus efeitos "erga omnes" como se fossem as tábuas de Moisés. Restava apenas informar aos índios que as terras em que pisavam já estavam escrituradas em nome da coroa portuguesa. A Carta de Vaz de Caminha já soava como título definitivo.
Pouca ou nenhuma mudança cultural houve de lá até hoje. A terra que deveria servir para garantir segurança alimentar de uma nação inteira pode virar pasto e plantação de eucalipto sem o menor desconforto na consciência, se estiver registrado em um papel. A lei, o direito e a burocracia servem à elite como um coquetel anestésico para a consciência.
É por esse mesmo sentimento de "direito" que os herdeiros das sesmarias vêem a reforma agrária como violência contra seus pilares de "Tradição, Família e Propriedade". Usam a lei para transformar a imoralidade em direito adquirido. Usam a mídia para convencerem a eles próprios e os demais de que são dignos de seus latifúndios, tratando qualquer mobilização como subversão à Ordem Social e, finalmente, usam a educação para dizer aos fracassados camponeses que a oportunidade existe, mas só se consegue com estudo e muita força de vontade! O recado está dado: façam o que dizem, mas não façam o que fazem.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Neonazismo: Déjà vu ou paranóia?

Dizem que se um sapo for colocado em uma panela de água quente, seu primeiro reflexo é dar um salto assustado para fora dela, mas se colocarmos em água fria e aos poucos formos aquecendo, o sapo ali fica agradavelmente até ser totalmente cozido.
Quando se fala em nazismo, a reação do ouvinte é de rejeição quase instantânea. O mesmo acontece com outras palavras como fascismo, xenofobia, extermínio. A reação do interlocutor é um salto anfíbio.
Mas os acontecimentos mais brutais da história não começaram na calada da noite. Por exemplo, o golpe militar eclodiu em 1º de abril de 1964, mas sua articulação começaria pelo menos 10 anos antes, e o caldeirão da ditadura começou suave como água fresca. Do mesmo modo, o nazismo não teve início com uma chacina, e sim com a simpática idéia de que os problemas sociais da Alemanha eram causados por imigrantes, especialmente judeus.
Fato é que há em São Paulo um movimento chamado "São Paulo para paulistas" (Alemanha para alemães?). Na França, os ciganos foram recentemente "convidados" a se retirarem, e a idéia tem apoio popular conservador. A saúde no Distrito Federal não funciona por causa das pessoas que vêm do "entorno". 
Causa tormento e assombro a simpatia por algumas idéias suaves que transitam sem nenhum pudor em nossa consciência. Toda vez que um grupo social é escolhido como bode expiatório assistimos a conseqüências desastrosas.
O que nos leva ao colapso não são os skinheads, e sim os intelectuais conservadores, honoráveis formadores de opinião.
No campo econômico estamos globalizados, mas enquanto seres humanos, cada vez mais apartados uns dos outros. O pior de tudo é que tudo isso nos aparece como déjà vu, inclusive a sutileza e a simpatia com que essas idéias se firmam.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Se Deus não existe, tudo é permitido?

A política de criminalização parece apenas revelar o fracasso da educação como processo civilizatório. Demonstração disso é que a punição e a reclusão são apresentadas com louvor como a solução para a harmonia social.
A famosa pergunta de Dostoiévski, "Se Deus não existe, tudo é permitido?", parece nortear a análise de Freud no "Mal estar na civilização". No texto, Freud questiona a punição como forma de garantir a convivência, uma vez que só tem validade enquanto se faz presente.
Em outras palavras, a preocupação de Freud recai sobre que tipo de comportamento esperar do homem quando este não estiver sob a vigilância do Estado, ou quando sua consciência estiver livre do aprisionamento causado pelo temor de Deus. A punição só garante a convivência enquanto se faz presente. Assim, basta a certeza da impunidade para que o homem esteja inteiramente livre para praticar tudo aquilo que desejar.
Freud propõe, entretanto, que as pulsões sejam controladas através de um processo de racionalização. Quando o homem internaliza a idéia de que o homicídio não é algo desejável, ainda que o Estado desapareça, ainda que não exista lei nem divindade a quem deva prestar contas, ele não cometeria, pois seria uma prática reprovada no âmbito da sua consciência.
Enquanto a educação for vista apenas como meio de "subir na vida", sem compromisso com um projeto civilizatório, continuaremos buscando a coesão social pela violência das leis. E lamentavelmente nosso horizonte não é dos melhores. Vemos acalorado clamor pela criminalização da homofobia, criminalização da xenofobia, redução de maioridade penal e pena de morte. Mas qualquer tentativa de resolver esses problemas através da educação soa como utopia e ingênuo idealismo. Lamentavemente, no nosso cenário social, a punição aparece como protagonista enquanto a educação não passa de figurante. O orgulho de leis duras esconde, na verdade, uma confissão vergonhosa de uma educação fracassada.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Proibição do uso de véu na França se chama "Princípios republicanos". Se fosse na Venezuela, que nome teria?

No último dia 14 de setembro, a BBC Brasil noticiou que o Senado francês proibiu o uso de véus islâmicos em público.
Por 246 votos a favor e um contra, as mulheres que usarem véu em público serão obrigadas a retirá-lo e conduzidas a delegacia para pagamento de multa.
Curioso é que a lei foi aprovada sob pretexto de 'princípios republicanos'. Segundo a ministra da Justiça, "a França garante o respeito a todas as religiões".
O que intriga nessa história é que não fica claro qual a ameaça do véu à ordem social. Religião é essencialmente simbólica. Não há que se falar em respeito às religiões, quando os seus símbolos são proibidos. Isso é retrato de intolerância e de repressão.
Quais são esses princípios republicanos ? Estado laico é aquele que não impõe nem adota uma religião oficial. Proibir as pessoas de a exercerem como entendem é adotar o secularismo como uma religião das mais fundamentalistas que se tem notícia.
Se o fato tivesse ocorrido na Venezuela, seria noticiado como uma brutal violência comunista, mas como foi na França, vamos chamar de "Princípios Republicanos". É assim que funciona?
Seria muito mais digno e honesto afirmar que "a França é, sim, intolerante à diversidade e à pluralidade, por isso aprovamos essa lei". Se tivessem dito isso, entenderíamos, com pesar, mas não haveria razão para essa postagem.